quinta-feira, novembro 28, 2013

Mais um prego no caixão da Filosofia em Portugal

Que a Filosofia, um F, nunca esteve bem neste país dos três F's - Fátima, Futebol e Fado -, todos nós sabemos. Mas nos dias de hoje, a Filosofia afunda-se cada vez mais. Como se não bastassem os "filósofos" chatos e inúteis (olá, Eduardo Lourenço. Olá, José Gil), não ajuda um certo ex-primeiro-ministro com apelido de filósofo dizer que leu muito o Kant. E ajuda muito menos um certo ex-ministro da Cultura, ex-candidato à Câmara Municipal de Lisboa, ex-deputado e professor catedrático de Filosofia (sem o "ex") ter agredido uma certa apresentadora de televisão muito dada a operações plásticas.

E é aqui que eu quero chegar. As consequências do caso Carrilho X Bárbara são nocivas para a percepção que o cidadão comum tem da Filosofia e dos filósofos em Portugal. Se os filósofos e a Filosofia já eram mal vistos ("aquilo são tudo paneleiros", "Filosofia? Isso não interessa para nada!", etc.), agora a situação está bem mais bera! Cometendo a falácia do tomar a parte pelo todo, as pessoas associam o comportamento do Carrilho, um filósofo (um mau filósofo, mas ainda assim um filósofo!), ao comportamento de qualquer pessoa que tenha um mínimo de relação com a Filosofia. Assim, e transformando isto num argumento, o que as pessoas pensam vai dar nisto:

O Carrilho bateu na mulher.
O Carrilho é filósofo.
Logo, quem é filósofo bate na mulher.

E pronto, está armada a confusão! E não adianta dizer que este argumento está mal formulado e o caraças, porque para perceberem a falácia as pessoas precisariam de ter um mínimo de entendimento filosófico. E não têm, nem querem ter. A Filosofia, por estas alturas, equivale à lepra de há séculos atrás: se a vêem aproximar-se, fogem a sete pés.

Estou a dizer estas coisas porque eu próprio já ando a sofrer na pele estes preconceitos. Lá no bairro, sou olhado de lado desde que a novela Carrilho e Bárbara veio a público. Eu bem oiço os comentários das vizinhas, apesar de levar os meus fones ligados e ter o volume alto:

- Olhe, olhe, ali vai o Peter of Pan.
- Ai que horror. Veja-me o olhar esgazeado dele. Nota-se bem que é licenciado em Filosofia.
- Pois é, pois é. Coitada da mulher. Deve apanhar poucas, deve.
- Então a vizinha não se lembra de na semana passada ela andar a tossir muito? Foi ele que lhe deu um pontapé nas costas, de certeza.
- Ah, o celerado. E a polícia não faz nada! Que escândalo! Era prendê-lo e queimar-lhe os livros todos.
- Ouvi dizer ali no café que o Peter of Pan tem um livro do Kripke.
- Ai! Isso só pelo nome... Não é coisa boa, de certeza. Antes andasse metido na droga, como o meu sobrinho. Ao menos, quando está naquilo, não chateia ninguém.
- E ainda dão essas coisas nas universidades.
- Realmente! Por isso é que este país está como está.

E é isto. Nem as amigas da minha mulher me poupam. Andam sempre a perguntar-lhe se ela está bem, se não sofreu nada, e a cereja no topo do bolo é tentarem saber se eu ando a ler "muito Égel ou muito Níche". Se a gaja responde "o normal, o mesmo de sempre", elas, à beira das lágrimas, desatam a abraçar a minha esposa, como se ela vivesse no meio de uma tragédia permanente. Já houve uma que, ao ver as minhas estantes de livros, pensou em denunciar-me à APAV. Não fosse a minha presença de espírito demonstrada na rapidez com que lhe mandei à tola a História da Filosofia Ocidental do Bertrand Russell, hoje estaria a ser julgado por violência doméstica.

Por estas e por outras, se um dia eu apanho o Carrilho à minha frente (obrigadinho por nada, meu palhaço!), digo-lhe que o William James é um filósofo menor. Vão ver se ele não fica a chorar baba e ranho durante umas duas semanas...

segunda-feira, novembro 25, 2013

Ódios de estimação: The Beatles e John Lennon

Pois. Como falar de uma coisa quando a frase que serve de título já diz tudo?! Porém, sabendo previamente não ter nada a acrescentar ao que já aí foi expresso, vou tomar um pouco do vosso tempo e da vossa paciência e desenvolver um pouco mais este meu ódio de estimação.

Beatles e John Lennon. Idolatrados por muitos, desde há várias décadas. Avós, pais, filhos, netos: há gerações inteiras que em comum têm apenas o gostarem da música do fab four de Liverpool. O avô pode ser fascista, o pai comunista, o filho empresário e o neto drag queen, e nos almoços lá em casa a conversa assentar em torno do álbum branco ou outra coisa qualquer que os betinhos dos Beatles (os "beatlinhos"?!?) tenham gravado. Mais uma evidência de que o mau gosto tem um poder de intrusão muito forte e é capaz de atravessar espaços e tempos.

A primeira vez que ouvi Beatles não me lembro. Nem da segunda. Nem da terceira. Mas recordo-me perfeitamente de aos 7-8 anos estar no meu quarto, rádio ligada, e perguntar "€@#&, mas que merda de música é esta?" quando um programa radiofónico passou uma canção que, 3 minutos mais tarde, identificou como pertencendo aos "fantásticos Beatles". Lembro-me também de desatar a chorar para junto da minha mãe, aos gritos de "mãe, mãe, tenho medo dos Beatles" quando vi imagens do quarteto na televisão.

Pior reacção, só quando escutei, algures em 1985 (maldito dia!) o "Imagine" do John Lennon a solo. Estava eu numa festa com amigos e o que eu disse foi mais ou menos isto: "Porra, que música tão lamechas e pirosa. O que é isto?! Dá vontade de pegar num revólver e dar um tiro à queima-roupa no palhaço que escreveu e compôs esta porcaria, não dá?!" Para o facto de ter obtido como resposta somente os olhares reprovadores de todos os que naquela sala se encontravam, só anos mais tarde encontrei uma explicação. Aparentemente (e só soube disto em meados dos anos 90, vejam lá o meu alheamento a tudo o que diz respeito a essa bandeca...), a um iluminado cidadão norte-americano gordo e de óculos passou ideia semelhante pela cabeça, e decidiu mesmo colocá-la na prática. Poucas vezes terão sido os norte-americanos tão utilitarianamente produtivos para o bem no mundo quanto com essa atitude do senhor Chapman.

(é que a música é mesmo má, caramba. Má, má, má! Imagine all the people, o meu rabo!)

Atenção! Não é que eu não goste de uma coisinha ou outra. Há mesmo uma coisinha que eu gosto, não nos Beatles, mas no John Lennon a solo: chama-se Working Class Hero e, esta sim, é um verdadeiro hino que merecia ser cantado por todas as pessoas, não aquele nojo do Imagine, já para não falar na integralidade da discografia dos escaravelhos, cujo nome é adequado porque andavam sermpre a empurrar com bosta. Mas lá está, haver UMA música de jeito pelo meio das discografias de Beatles, John Lennon, McCartney (escarro!), Harrisson (gregório!) e Starr (defecação mole!) é menos do que uma gota em pleno oceano. Comparando, é como se o Passos Coelho decidisse, assim do nada, por uma medida positiva, digamos, enviar por e-mail fotografias da Sara Sampaio toda nua aos portugueses do sexo masculino (além de positiva, esta medida é, parece-me, rigorosamente constitucional!). Esta medida apagaria toda a incompetência a que tem sido votada a sua legislatura? Claro que não.

O mesmo vale, portanto, para os Beatles e os seus membros. Não há nada que atenue aquela baixeza. E como isso é assim, tê-los-ei sempre como meus ódios de estimação. Porque aquela onda de músicas ranhosas e visual oscilando entre o beto e o hippie revoltar-me-á até ao fim dos meus dias. E ai de quem, por ironia, gozo, ou desfaçatez, decida pôr o Imagine no dia do meu funeral. Não é que eu acredite em fantasmas, mas se alguém me fizer isso, arranjo maneira de me transformar num poltergeist e infernizar-lhe a vida.

Até à próxima e que os vossos cds dos Beatles se quebrem!

terça-feira, novembro 19, 2013

A morte dos artistas

O último jogo de futebol entre amigos teve um sabor agridoce. A minha equipa venceu por uns renhidíssimos 7-6, num jogo disputado em alta rotação. O facto de nenhum jornal desportivo ou telejornal generalista terem feito referência a esta magnífica partida demonstra na perfeição a falta de qualidade dos nossos meios de comunicação social... Nem uma notinha de rodapé a elogiar o meu maravilhoso golo, derivado de uma desmarcação genial e onde mais uma vez o meu pé esquerdo se mostrou de excepção, ao tirar o guarda-redes adversário da jogada com uma finta apenas ao alcance dos predestinados. Não vi falarem disto em lado algum, mas se o Cristiano Ronaldo cortar o cabelo, isso já dá direito a capa de jornal. Uma merda de jornalismo, é o que temos!...

O encontro em questão, porém, não deixou só notas positivas a mim e à minha equipa. Não: passados 17 anos desde que se estrearam num piso desportivo, os meus ténis, uns exemplares pretos da marca Fute, morreram. Morreram de pé - o téni esquerdo todo aberto na frente, o téni direito com a sola descolada - mas morreram. Foram as peças de calçado que mais tempo me duraram, e mesmo tendo sido alvo de uso intensivo, só agora, ao fim de - repito - 17 anos, é que se finaram. Passearam o seu perfume (e o meu chulé!) por vários locais da área metropolitana de Lisboa, marcaram centenas de golos, fintaram jogadores atrás de jogadores, mandaram uma ou outra cacetada, disputaram torneios em várias localidades, sempre com elevadíssima prestação, contudo chegou a hora final. Quis mandar cantar um Requiem em honra destes ténis no final do jogo, mas os meus companheiros estavam muito cansados, disseram, e os meus adversários declararam que isto era uma estupidez. Enfim, uns e outros bem podem ir bardamerda.

Pior é agora o vazio em que os meus pés se encontram. Não vai ser fácil substituir uns ténis de jogar à bola que se tornaram na referência dos ténis de jogar à bola. Entre os meus pés e aqueles ténis já se tinha gerado uma relação simbiótica: eu já não sei se eram os meus pés que se adaptavam na perfeição aos ténis ou se eram os ténis que se adaptavam na perfeição aos pés. Não sei eu e ninguém, estou certo, saberá. E não é de um dia para o outro que se apaga uma relação de quase 20 anos, para mais uma relação tão intensa...

Na próxima semana, voltarei a jogar futebol, desta feita com uns ténis novos. Não vai ser fácil a qualquer par de ténis estar à altura da herança deixada pelos meus saudosos ténis Fute. Prometo deixar aqui uma crónica do jogo em causa, mas profetizo de antemão que o fantasma dos meus ténis passados andará a pairar sobre aquele campo de relva sintética. Descansem em paz, eu nunca vos esquecerei, e os meus pés também não. E obrigado por tudo o que me deram.

segunda-feira, novembro 11, 2013

O xadrez e os preconceitos de classe

Em cada 10 vezes que jogo xadrez, perco 9. E as minhas derrotas derivam menos da incompreensão das regras do jogo, e mais dos meus preconceitos de classe.

Vou passar a explicar. O xadrez, como sabem, tem nas suas peças a simbolização dos três estratos da sociedade clássica: há a nobreza (rei, rainha), há o clero (bispo) e há o povo (peões). Acontece que eu, como bom esquerdista que sou, olho para as peças de xadrez de modo vertiginosamente distinto do que elas significam no jogo. Para mim, as peças relativas à nobreza e ao clero são desprezíveis; só tenho interesse verdadeiro no povo (os tais "preconceitos de classe" a que acima aludi). Por isso, quando jogo xadrez, jogo-o ao arrepio de tudo o que o senso comum ditaria a um outro jogador qualquer. Eu não sacrifico um peão para conquistar, sei lá, uma rainha adversária. Sacrifico, isso sim, a minha rainha (essa puta que anda para todos os lados!) para dar cabo de um peão, isto é, um membro do povo adversário, que um azar histórico o tornou meu inimigo (tradução de "azar histórico": um "tirar à sorte" que me coloca com as brancas e o outro jogador com as pretas... algo me diz que não foi exactamente isto que aconteceu com Napoleão e Wellington). Também nunca uso os meus peões para proteger as outras peças, por exemplo, um bispo ou o rei. Não: os meus peões são as minhas peças mais importantes e são as outras que os devem proteger!

Como é óbvio, a realidade do jogo de xadrez nada quer saber da minha ideologia proletária e disto deriva o facto de, em pouco mais de 10 minutos, eu me ver reduzido a quatro ou cinco peões e ao rei, que acaba de levar um xeque-mate de um complot de peças adversárias onde se contam a rainha, as duas torres, um bispo cabrão e pedófilo, e os dois cavalos. E é então que eu percebo ter a minha estratégia falhado redondamente. Sim, tenho todos os peões adversários em meu poder, e muitos dos meus continuam de pé, mas não é isto que conta no xadrez.

Isto merece-me uma reflexão. Ou eu aprendo a viver dentro do sistema e passo a agir de acordo com as regras, explícitas e implícitas, compreendendo nesse processo que as hierarquias estabelecidas devem ser respeitadas, e que o povo estará hoje e sempre abaixo do clero e da nobreza, ou então uma revolução social e popular é precisa, uma revolução que coloque o povo, as pessoas, como alfa e ómega dessa nova sociedade, esmagando a aristocracia e a beataria!

Ou então deixo-me destas coisas e abandono de vez o xadrez, que me faz mal à cabeça...

quarta-feira, novembro 06, 2013

Filmes (pelo menos) tão bons quanto os livros

Um lugar-comum dos mais lugares-comuns que existem é afirmar que o livro é melhor do que o filme. Isto é uma coisa que se diz, muitas das vezes, por pessoas que nem sequer viram o filme ou nem leram o livro, ou ambos. E como todas as generalizações, é problemática. Se é verdade nalguns casos - O Nome da Rosa do Annaud é bom, mas incomparável ao livro do Eco, o mesmo vale para a Insustentável Leveza do Ser, apesar de o filme mostrar a Binoche nua, também para o Ensaio sobre a cegueira, e estou só a citar filmes de que gostei, não vou ao ponto de descer aos filmes que detestei feitos sobre obras literárias que adorei -, noutros não o é minimamente. Eis a minha lista de filmes que são tão bons ou melhores do que os respectivos livros:

1 - Alta fidelidade. É tão bom quanto o livro. Já li várias coisas do Nick Hornby, que passeiam entre o sofrível (About a boy, que deu também um filme da treta, com o Hugh Grant), o interessante (Fever Pitch, um livro de crónicas sobre futebol) e o brilhante (precisamente, Alta fidelidade). O filme, não chapando por completo o livro, consegue ser tão bom quanto este. John Cusack é um protagonista convincente, Jack Black oferece o contraponto cómico à profundidade sentimental que atravessa a história, e aparece a Catherize Zeta Jones. Se o livro é cinco estrelas, o filme não fica atrás.

2 - Sin City. Lá por ser banda desenhada, não quer dizer que não estejamos perante uma OBRA no sentido verdadeiro do termo. Sou desde adolescente fã, fãzaço, do Frank Miller, que tenho como o melhor argumentista da nona arte. Sin City é Miller vintage: violento, denso, psicologicamente bem estruturado, visualmente atraente, composto num preto-e-branco expressivo - como é de resto habitual no trabalho de Miller. Seria tarefa complicadíssima transpor estas propriedades para ecrã, mas o filme do Robert Rodriguez fá-lo de modo magistral, tanto que por várias vezes abri a boca de espanto quando fui vê-lo ao cinema, julgo que no Monumental do Saldanha. Para mim, junto com The Watchmen (outra dupla filme/livro que poderia fazer parte desta lista), é a melhor adaptação para cinema de uma história originalmente composta em banda desenhada. Tão bom quanto o livro.

3 - Relatório minoritário. Aqui, o filme é um poucochinho melhor que o livro. Atenção: eu gosto do conto. Muito. O Philip K. Dick é dos meus autores preferidos de ficção científica. Mas o filme dá a volta por completo ao texto, diferencia-se dele, melhora-o. Não sendo propriamente uma adaptação e mais uma "inspiração" (há que ler o conto e ver o filme para se perceber como são tão distintos um do outro), o Relatório minoritário do Spielberg consegue acrescentar enredo e reforçar a ideia de distopia presente no conto (recordo: um mecanismo que permite deter os criminosos antes que eles cometam os crimes. Deveria ser obrigatório tê-lo antes de todas as nomeações de árbitros para jogos do FC Porto...). Junto com A lista de Schindler, Relatório minoritário é o melhor filme de Steven Spielberg. Boa história, bons efeitos especiais, bom ritmo, coisas que a presença de manjões como o Tó Cruz e o Colo Farelo não conseguem estragar. Só mais uma breve nótula: TODOS os filmes que eu vi adaptados de contos escritos pelo Philip K. Dick são bons. Este, o Desafio Total (cujo filme é também tão bom quanto o texto) e, claro, o Blade Runner (de que vi o filme, excelente, mas não posso comparar com o livro porque ainda não o li). Se eu cometesse o pecado da generalização cometido pelos incautos apologistas do "livro melhor que o filme", diria, baseado na minha experiência, que não poderá haver um filme baseado numa obra do Philip K. Dick que seja um mau filme. Mas não vou dizê-lo, claro. Porque seria falso, embora seja verdadeiro. Hã?!? Pois... Não queiram desmontar esta minha lógica. Ainda ficam com problemas na coluna!

Dou só estes três exemplos que desbastam o velho cliché do "o livro é melhor do que o filme". Mais poderiam ser citados. Mas isso só o farei quando começar a gravar o Peter of Pan, o filme, que vai ser bastante melhor do que o blogue (também não era preciso muito!), pois vai ter efeitos especiais do mais moderno que há e gajas, muitas gajas. Todas nuas. E golos do Sporting. Também muitos. É esperar para ver.

segunda-feira, novembro 04, 2013

Não tentem fazer isto na rua!

Início da tarde de sábado. Levo o miúdo no carro para dar um passeio. Nisto, começo a sentir a direcção do veículo a ficar pesada. "Hmmm, aqui há coisa", penso eu. Paro o carro: o pneu frontal do lado esquerdo esvazia-se a olhos vistos. A razão? Um rasgão longitudinal. "Dass, bela hora para furar o pneu", cogito em ironia, como se houvesse uma boa hora para tal coisa ocorrer.

Nada a fazer: há que trocar o pneu. Rápido como um tiro, esvazio o porta-malas (que anda sempre cheiinho: carrinho de bebé, mais as coisas do carrinho do bebé (cobertura, etc. - enfim, baby tuning), macaco, pneu sobressalente, chave de cruz.

Tudo bem, isto é coisa a que um macho está habituado, pois tem gravado na sua matriz genética o saber mudar um pneu. Há apenas um pequenito (e, aqui, o termo não é inocentemente usado...) problema: sempre que me baixo para colocar o macaco/desaparafusar as porcas/tirar o pneu furado/colocar o pneu sobressalente/apertar as porcas/tirar o macaco, o puto, sentado no carro, deixa de me ver. E quando deixa de me ver, se num mundo ideal deveria ficar quieto e calado, no mundo real é berrario e pontapé de fazer inveja aos integrantes da Casa dos Segredos/Big Brother/demais programas da treta da TVI, incluindo as entrevistas ao prof. Marcelo.

Daí que a minha odisseia de mudança de pneu tivesse sido digna de uma modalidade olímpica, porque de 5 em 5 segundos tinha de me levantar para que o miúdo se calasse. Não contei o número de flexões de pernas efectuadas, mas foi elevadíssimo, estou certo, tão elevado quanto o número de vezes que o Paulo Portas deve dizer, em surdina, à Maria Luís Albuquerque a frase "nós não percebemos mesmo um cu disto!" Visto pela minha criança, eu devia parecer um daqueles bonecos do whack-a-mole: tão depressa estava lá em baixo quanto estava cá em cima outra vez.

Pressionado que estava pela choradeira do miúdo, tive uma prestação quase usainboltiana na troca do pneu. A pressa foi tanta e a atenção ao que ia fazendo tão pouca que temi pegar no carro e ver a roda saltar - ou, com a sorte que tenho, a roda trocada ficaria bem, mas saltariam as outras três dos respectivos eixos. Felizmente, nenhum destes cenários se verificou. Nenhuma roda saiu a correr pelo meio da estrada e chegámos a casa sãos e salvos, quer dizer, mais ou menos, porque ainda estou com um problema muscular nas pernas fruto de tanto sobe-e-desce.

Moral da história: não tentem mudar pneus com filhos menores sozinhos no carro. Da próxima vez, insisto em ficar eu no carro e o meu filho que mude o pneu!

quarta-feira, outubro 30, 2013

O regresso dos jogos de futebol com amigos

Quando um grupo de amigos me chama para jogar à bola, eu normalmente digo presente. E ontem disse-o: passados mais de três anos desde a última vez, voltei a jogar futebol. Vivas para mim!

Claro que este interregno provocou as suas mossas. Eu já não jogava há tanto tempo que, quando me foi passada a bola pela primeira vez no jogo de ontem, eu fiquei 10 segundos a pensar "Mas que raio faço eu agora com esta merda?!". Quando cheguei à conclusão que era para enfiar aquilo na baliza adversária, já a bola tinha desaparecido de junto dos meus pés. Indignado, ainda pensei em chamar as autoridades, mas um companheiro de equipa despertou-me desta letargia ao gritar "F*d@-se, Peter of Pan, mexe-te, c@r@lh*!". Passados 5 minutos, a reminiscência futebolistica já se instalara perfeitamente no meu disco rígido e jogava à vontade com o resto da equipa à qual pertencia.

Não foi apenas a dificuldade de recordar o que havia para fazer num campo de futebol a única mossa provocada pelo meu prolongado hiato destes ofícios. Outras mossas foram surgindo. Enquanto futebolista, devo confessar que a técnica está lá, praticamente intacta, e uma ou duas jogadas de elevado recorte artístico comprovaram-no. A velocidade também não sofreu muito: continuo capaz de competir com o Usain Bolt, ou seja, se me ponho a correr, ninguém me apanha. Mas a resistência, essa... se, como referi, ao fim de 5 minutos já estava entrosado com a equipa, ao fim de 6 minutos já pedia a intervenção do INEM, de tão extenuado que me encontrava. 

Portanto, bem feitas as contas, só pude demonstrar o meu real valor durante 1 minuto. Se tivermos presente que o jogo durou 60 minutos, é fácil perceber por que a minha equipa perdeu por 5 a 3: estivemos mais de 50 minutos a jogar com menos um jogador, e esse jogador a menos era eu, que me arrastava literalmente pelo relvado e era levado a pensar que a profissão de trolha, afinal, custa menos, fisicamente falando, do que dar uns toques numa bola.

Isto dito assim, pode-se pensar que eu tenho as mesmas capacidades dos jogador do Benfica: eles também não sabem o que fazer dentro do campo e não podem com uma gata pelo rabo. Essa comparação sai ainda mais reforçada quando os meus companheiros foram unânimes em afirmar que o meu estilo de jogo, naquele único minuto em que consegui realmente jogar, fazia lembrar o do Markovic. Ora, isso é a mesma coisa que dizer que eu jogo como o Messi: se eu sou parecido com o Markovic (dizem os meus colegas) e se o Markovic é parecido com o Messi (diz a imprensa conotada com o clube lampião), então, pela regra lógica do "Se A é B, e se B é C, então A é C", regra que até o Manuel Maria Carrilho percebe sem ter necessidade de agredir alguém, eu sou parecido com o Messi. QED.

Mas só durante um minuto...

Daqui a 15 dias, tenho novo jogo. A minha exibição foi tão marcante que fui novamente convidado, sobretudo pelos jogadores da equipa adversária - não compreendo é porquê...

Da próxima vez, vou tentar ser o Markovic/Messi durante 2 minutos. Daqui a uns bons anos, consigo manter o nível durante o jogo todo.

segunda-feira, outubro 28, 2013

As minhas impressões sobre o caso Bárbara Guimarães e Manuel Maria Carrilho

A novela do momento é a troca de galhardetes e, a crer nas notícias, em algo mais do que isso, entre o ex-ministro Manuel Maria Carrilho e a apresentadora Bárbara Guimarães. Diz-se por aí que o filósofo agrediu a barbie, o que faz desta uma relação althusseriana, mas em fraquinha (o Althusser foi um filósofo que um dia se passou da marmita e matou a esposa. Enfim, é o que dá querer reinventar o Marx...).

O que a mim importa verdadeiramente neste enredo é saber o que terá motivado Carrilho a agredir a mulher. Sendo que um filósofo gosta sempre de agir em conformidade com o seu pensamento (uma questão de unir teoria e práxis, agora não vou estar para aqui a explicar!), gostava de saber quais foram as causas que levaram um pragmatista a assentar a palma da mão, ou a sola do pé, no rosto da famosa figura televisiva.

Como sou também um gajo dado às filosofias, pus-me a pensar nisto. E cheguei a três possíveis conclusões.

1 - O Carrilho agrediu a Bárbara porque esta mexeu-lhe no Aristóteles sem pedir autorização.
Eu percebo: se tivesse alguém a mexer-me no Aristóteles sem licença, a mim também me saltaria a tampa! O Aristóteles, por detrás daquele ar duro e seco, exige ser bem tratado e acarinhado. Não é chegar ali e pegar nele de qualquer maneira, assim à bruta, sem avisar nem nada. É preciso ir com calma, dar-lhe tempo; quando menos se espera, ele entra por nós bem adentro. A Bárbara, se calhar, não teve o devido respeito pelo Aristóteles do marido, e quando isso acontece o casal sofre. Em qualquer relacionamento, é bom haver respeitinho pelo Aristóteles e tratá-lo como ele tão bem merece. O meu Aristóteles é muito respeitado, e isso revela a solidez de um casamento.

2 - A Bárbara, numa conversa à refeição com o esposo, misturou pragmatismo com utilitarismo. E o Carrilho não foi de modas e mandou-lhe com o prato às trombas.
Novamente, eu percebo isto e não recrimino a atitude do homem. É inadmissível confundir uma posição que defende que a avaliação de hipóteses teóricas deve passar por perceber as suas consequências práticas com uma posição que defende que a diferença entre uma boa e uma má acção está nas consequências que delas derivam. Pá, se por exemplo a minha gaja fizesse uma mistura entre estas duas ideias ao pequeno-almoço, eu confesso que também era gajo para lhe rebentar a boca. Portanto, se foi isto que sucedeu, não só não condeno o Carrilho como estou inteiramente solidário com ele.

3 - Enquanto estavam na cama, a Bárbara cometeu uma inconfidência, do género:
- Ó Mané, tu és um filósofo brilhante!
- Pois sou, Bábá.
- Mas não és o meu filósofo predilecto.
- Ai não?
- Não. Eu gosto mais do Sócrates.
- Ah. Pois, todos nós somos herdeiros de Atenas...
- Não é desse. É do José!
Depois de uma destas, qualquer homem digno desse nome teria de partir para a violência. É uma questão de imperativo moral: se há ocasiões em que a violência é justificável, esta é claramente uma delas, e o seu uso visa apenas reparar uma ofensa e uma injustiça. Não é que eu ache o Carrilho um filósofo particularmente brilhante (não é), mas estar abaixo de José Sócrates é abusar do livre-emprego da axiologia. Se foi isto o que ocorreu, dúzias de pontapés naquele peito siliconado ainda era pouco...

Na minha óptica, aconteceu uma destas três merdas. Ou até duas. Ou mesmo as três. Espero solenemente que os jornais e as televisões continuem a acompanhar o caso, e que as investigações em decurso possam confirmar qualquer uma das minhas hipóteses que, filosoficamente, estão estruturadas de forma brilhante. Aprende, Manuel Maria.

terça-feira, outubro 22, 2013

Polémicas acerca de livros

Tenho perfil no Goodreads (não sabem o que é?! Ó pá, também não vou explicar) e cerca de 20 amigos nessa rede social. Uma das coisas engraçadas que se pode fazer aí é ver o que os meus amigos acharam dos livros que eu li e classifiquei, como se fosse uma Moody's da literatura, com 5 estrelas.

Mas esperem lá: eu disse que era engraçado?!? Na verdade, o que eu queria dizer é que é desesperante!!!! Os pacóvios dos meus amigos (e tomo "pacóvio" no seu sentido mais estrito e "amigo" no seu sentido mais lato...) têm opiniões completamente opostas à minha, ou seja, eles estão completamente enganados.

Alguns exemplos:

Um amigo deu 3 (TRÊS!!!) estrelas à República do Platão. Um livro que é só das coisinhas mais legíveis que a Filosofia já produziu. Um livro que, embora contendo muitos erros e muitas posições duvidosas, continua a ser estimulante para o pensamento. Um livro que nunca merece menos de 5 estrelas. Quando me insurgi face ao rating dado por esse meu amigo, ele lá reconheceu o erro e subiu a avaliação para 4 estrelas. Não basta, meu filho-da-puta!!!!! A República merece estar lá mais em cima. Atribuir-lhe menos do que a nota máxima é tipo dizer que o Messi é um jogadorzeco, ou que a Mila Kunis é girinha. Não chega, percebem?!?!

Mas há pior.

Uma amiga minha, de quem eu já conhecia o talento para as opiniões parvas quando me disse que a banda favorita dela era melhor do que a minha banda favorita (facto suficiente para interná-la num manicómio), cometeu a ofensa de atribuir 1 (UMA!!!) estrela apenas àquele que considero o melhor romance português do século XX e quiçá de sempre: Aparição, de Vergílio Ferreira. Sim, eu sei que os amigos são amigos mesmo que haja discordâncias pelo meio, mas isto é demais! Aposto que nem o Pedro Passos Coelho seria capaz de manifestar uma opinião tão, como hei-de dizer..., estúpida. Acredito que até o Jorge Jesus já leu o livro e gostou. Arrasar desta maneira um romance da craveira de um Aparição é o equivalente, em termos de crítica literária, ao Holocausto. E não estou a exagerar. Pior: quando fiz valer o meu bom senso e lhe apontei, serenamente, que estava errada, ela limitou-se a responder que odiou mesmo o livro. Não conheço sinal mais evidente de barbárie do que este...

E pensam que isto fica por aqui?

Uma familiar minha chegou à indecência de chapar 1 estrela no Pela estrada fora do Kerouac, outro dos livros da minha vida. Outra amiga deu 3 estrelas ao Siddhartha do Hesse. A mesma amiga dá também 3 estrelas ao A insustentável leveza do ser, do Kundera. A tal amiga que deu 1 ao Aparição dá 3 estrelas ao Pêndulo de Foucault! Tudo livros inquestionavelmente 5 estrelas! Isto é tudo uma filha-da-putice e se eu mandasse, colocaria no Orçamento do Estado para 2014 medidas que punissem especificamente esta gente com mais um reforço de austeridade!

Eu sou uma pessoa com elevado sentido de tolerância e admito a diversidade de opiniões. Mas merdas como as que acabei de expor não se admitem, por mais compreensivo que um homem seja! Dá vontade de nunca mais ler um livro na vida! Mas depois penso: não, esta gente é que nunca deveria ter aprendido a ler.

Maldita escola inclusiva, maldita a hora em que professores ensinaram o alfabeto a tais pessoas. E maldito eu que os adicionei no Goodreads...

segunda-feira, outubro 21, 2013

Da próxima vez que marcarem um encontro "antigos alunos", fico em casa a estudar

Ontem foi dia de reencontro com antigos colegas do secundário. Gente que não via há mais de 5, 10 ou mesmo 20 anos apareceu, com um rancho de filhos atrás. O melhor deste tipo de encontros é uma pessoa aperceber-se de que o tempo é como se não tivesse passado, pois logo após as devidas apresentações ("olá, este é o meu marido e aqueles os meus 12 filhos", "oi, esta é a minha esposa e aqueles a roer as pernas dos teus 12 filhos são os meus 15 cães"), a conversa decorreu como se não nos houvéssemos separado nunca. Por outras palavras, o que de certa forma é reconfortante, continuamos os mesmos parvos de sempre. Excepto eu, que me mantenho o intelectual distinto que era na altura, e a comprová-lo o post de amanhã trará não mais de três vezes a expressão filho-da-puta, vejam lá a distinção intelectual que vai para aqui!

O mau destes encontros é que há sempre um estúpido ou uma estúpida que levam isto do "tempo não passar por nós" demasiado à letra e começam a apontar coisas óbvias que denotam a passagem do tempo. Do género "ihhhh, estás tão careca. E os poucos cabelos que tens estão a ficar todos brancos".

Pá, obrigadinhos, hã?!? Como se eu não soubesse disso! Uau, estou careca e com cabelos brancos?! Se não mo tivessem dito ontem, nunca adivinharia... Se é para ir a um sítio para ter gente espantada e desalentada por eu estar, digamos, a envelhecer, vou almoçar com a minha mãe em vez de me encontrar com antigos colegas. Eu também não disse à Coisinha que ela parecia uma caveira com rugas, nem ao Coisinho que ele fazia lembrar um chefe gay da Yakuza. Porque isto são cenas que - tenho a certeza - eles devem ouvir todos os dias!

Se é para estas coisas que servem os encontros de antigos alunos, quando marcarem o próximo fico em casa a ver a TVI.

terça-feira, outubro 15, 2013

Um homem casado é um homem lixado

Vejam lá as coisas que um gajo é obrigado a ouvir da sua gaja:

"Tu a dançares pareces aqueles cantores dos anos 80"

A gravidade destas declarações encontra-se reforçada se eu disser que os cantores dos anos 80 que a gaja tinha em mente eram: Jimmy Somerville. Andy Bell (dos Erasure). George Michael. Boy George. Marc Almond.

Para quem não sabe (e é preciso andar muito arredado das coisas deste mundo para não saber), são tudo artistas de duvidosa orientação sexual.

Portanto, a gaja no fundo quis dizer que eu danço como uma bichona! Já houve divórcios por menos!!!!

(Em minha defesa, devo dizer que não sei mesmo dançar. E isto é uma coisa muito à homem!)

segunda-feira, outubro 14, 2013

Sinto-me sexy!

Estou constipado e rouco. Em circunstâncias normais, isto seria um problema. A verdade é que não o é. Por causa de estar constipado e rouco, a minha voz, já habitualmente máscula, adquiriu um acréscimo de virilidade que não tem comparação. Há pouco, disse BOM DIA (assim mesmo, em negrito e caixa alta...) a um colega, e duas raparigas que estavam a tomar café ao balcão tiveram um orgasmo. Estou a receber telefonemas de cinco em cinco minutos, e isto só porque quem está do outro lado quer ouvir-me falar. Nem há meia hora atrás, uma senhora pediu-me que lhe recitasse Os Lusíadas e eu mandei-a à merda; ela gostou tanto da forma como o disse que pediu-me para repetir.

Mas o assédio não tem ficado por aqui. Até ao momento em que escrevo estas linhas, já recebi 489 propostas de casamento, 325 das quais feitas por mulheres. E já tive 173 pessoas a suplicar-me que lhes fizesse um filho, incluindo o segurança do edifício, a quem cometi o erro de dizer 'TÁS BOM, PÁ?!, as duas velhas do primeiro andar, que trabalham nem sei bem em quê, e as 4 checas com quem partilhei o elevador.

Se eu não arranjar depressa umas pastilhas para combater a rouquidão, bem me parece que vou passar o dia nisto. Ainda acabo o dia a substituir o Portas e passo a ser eu a comunicar as futuras medidas de austeridade aos portugueses. E eles vão ouvir-me e vão gostar.

(mal por mal, se é para andarem a ser fornicados, ao menos que tenham algum gozo nisso...)

ATÉ AMANHÃ (imaginar esta despedida feita com uma voz grave, cavernosa mesmo, e absolutamente sexy. Já imaginaram? Pois, sou eu...)

terça-feira, outubro 08, 2013

A bipolaridade de um fiel sportinguista

O meu clube do coração tem como característica, ao longo de todos estes anos em que me conheço como adepto, ser esbanjador na distribuição de tristezas e poupado na dádiva de alegrias. Mas continuo irredutível e serei do Sporting ontem, hoje e sempre.

De qualquer forma, temporadas e temporadas de insucessos, que culminaram na de 2012/2013, a pior época de sempre do Sporting no que ao futebol toca, fizeram de mim um céptico e passei a duvidar, como se fosse um Michel de Montaigne dos adeptos leoninos, do futuro do clube.

Só que o Sporting começou a época 2013/2014 (a época seguinte à pior de sempre, para os menos atentos...) a todo o gás. A jogar bem. A marcar aquilo que só pode ser expresso como "buéda golos, c@#$%&%!!!" E aqui mesmo o mais céptico dos sportinguistas tem de acabar por ceder. E em lugar de céptico, torna-se bipolar. E esquizofrénico. E paranóide. E restantes perturbações mentais pertencentes ao DSM-IV. Mas, essencialmente, bipolar.

Nada revela essa bipolaridade quanto as conversas mentais que mantenho comigo mesmo durante os jogos. Que são mais ou menos, e cito-me a mim próprio de memória, portanto peço-me desde já desculpa se não estiver a ser exacto comigo mesmo, assim:

Jogo: Sporting X Setúbal. Local: Estádio de Alvalade. Resultado: 4 a 0 a favor dos bons.

Peter of Pan descrente: Iá, marcámos um golo, mas não vamos lá. Ainda perdemos o jogo!

Peter of Pan crente: F@da-se, gooooooolo!!!!!!! Já lá está!!!! O primeiro lugar é nosso! Lindo, Montero, lindo, faz-me um rancho de filhos!!!!

Peter of Pan descrente: Ok, dois a zero. Mas o Setúbal ainda tem tempo para recuperar. Já vi coisas piores em jogos do Sporting...

Peter of Pan crente: Toooooma lá!!!! 2 a 0!!!!!! Embrulhem, chocos fritos!!!!! Spoooooorting!!! Lindos, lindos, Carrillo, sodomiza-me como sodomizaste a defesa sadina!

Peter of Pan descrente: Sim, mais um golo. Está bem. Mas gastam os golos todos agora, quando forem jogar com o Porto já não têm nenhum para dar.

Peter of Pan crente: Ihhhhhhh, 3 a 0! 3 a 0!!!!!!!! Quando formos ao dragão, espetamos mais uns três que até viramos os tripeiros do avesso. Vamos ser campeões. E ganhar tudo! Chupem, tripeiros e lampiões, força Sporting allez!

Peter of Pan descrente: Pronto, 4 a 0. Mas contra o Setúbal é fácil. Quero é ver agora quando os jogos forem a doer. Começam a perder, vêm por aí abaixo na classificação. Não vão fazer nada outra vez, estes tipos... ai, como é triste ser do Sporting.

Peter of Pan crente: Pimba, 4! Quatroooooooo! A zeroooooo!!!!! Espectáculo!!!! Brutal!!! Vamos limpar esta porcaria toda, com ou sem árbitros a nosso desfavor. É tudo nosso! Spooooorting!!!! Ah, como é magnífico ser lagarto!!!!

E é assim que um sportinguista à séria vive. Agora, das duas uma: ou o élan mantém-se e vou andar assim até meados de Maio do próximo ano, ou começamos mesmo a levar na ripa e volto apenas a ser um céptico desencantado... Vamos ver!

segunda-feira, outubro 07, 2013

Peter of Pan entrevista Duarte Lima

Mostrando deter notável pluralidade, hoje o blogue entrevista um alegado criminoso de colarinho branco e homicida. E digo "alegado" porque não quero um exército de advogados atrás de mim. Não é que eu tenha medo deles, mas mais do que os betos e os lampiões, os advogados irritam-me. E não é que eu não goste deles, mas mais do que os tripeiros e os fascistas, o que eu queria era que os advogados fossem todos largados dentro de um vulcão em erupção. Mas estou a divagar. Vamos lá para a entrevista com o ex-deputado ex-presidente do grupo parlamentar ex-presidente da distrital de Lisboa do PSD. O que constitui um currículo de merda, ao qual se soma ter sido advogado (lá está!) e pensar que sabia tocar órgão de tubos. No meio disto, o suposto envolvimento num homicídio e no escândalo do BPN são coisas de somenos importância. Convosco, Duarte Lima.

Vou começar esta entrevista por uma pergunta simples. Matou ou não matou a Rosalina Ribeiro?
Quem?

A velha!
Ah, essa. Claro que não matei. Espetei-lhe um tiro, isso admito, mas se ela depois disso morreu, não tenho nada a ver com o caso. Os meus advogados conseguem demonstrar que não há uma relação causa-efeito entre levar um tiro e morrer. Afinal, há muitas pessoas que levam tiros e não morrem. Portanto, estou inocente.

E o dinheiro da herança de Lúcio Tomé Feteira, entrou ou não entrou na sua conta?
De quem?

Do velho!
Ah, esse. Olhe, nem sei. Entra tanto dinheiro, proveniente de fontes tão diversas, na minha conta bancária... Se eu estivesse a escrutinar tudo, do género, "Oh lá, estes 20 milhões de euros não estavam aqui ontem. De onde vieram e quem cá os pôs?!", não fazia mais nada na vida. E eu sou um homem muito ocupado em falcatr... aham, em negócios para perder tempo com tais mesquinhices.

Vamos precisamente por aí. Como explica que alguém sem particular inteligência, como você, tenha feito tanto dinheiro?
Posso não ser muito inteligente, e ser do PSD demonstra-o, mas sou bastante esperto e tenho tido sorte nas falcatr... aham, nos negócios em que me meto.

Suponho, portanto, que não está preocupado com o desfecho do caso BPN...
Náááá! Isso não vai dar em nada. O meu séquito de advogados irá certificar-se de que passo incólume. Sim, é chato o dinheiro que gasto só em honorários, mas no final do processo o Estado ainda vai devolver-me essa maquia. E já pensou no que aconteceria se todos os envolvidos no BPN fossem presos?! Portugal precisaria de triplicar o número de prisões só para acolher essa gente. Portanto, ilibar os envolvidos não só beneficia as finanças do país, numa altura em que se encontra em crise, como também evita o descalabro institucional da própria nação!

Como assim? Pode explicar melhor esse ponto?
Claro que explico. Com tanto político, gestor de topo, banqueiro e personalidade de reconhecido mérito envolvido no caso BPN, se fôssemos todos parar à cadeia, não haveria ninguém para mandar neste país. E aí era a anarquia: o Estado ver-se-ia sem dinheiro, as pessoas sem emprego, as pequenas e médias empresas a fechar... É esse o Portugal que queremos?!

Realmente... nem quero imaginar tal cenário!

Aí tem! Ainda bem que vivemos numa realidade completamente diferente.

Uma última pergunta, meu caro: como vê o actual PSD?
Olhe, o secretário-geral foi um tipo que perdeu para mim as eleições à distrital de Lisboa. Acho que isso diz tudo.

É verdade. Tem toda a razão. Obrigado pelo tempo dispensado.
De nada. Depois lá fora dou-lhe o meu NIB. Quando tiver 50 milhões de euros a mais, mande-me um pedacinho para a minha conta, está bem?!


FIM



quarta-feira, outubro 02, 2013

Os terríveis anos 80

Se época houve que significou uma mancha vergonhosa na história da Humanidade, essa época foram os anos 80. Os anos 80 são os anos do marketing cultural norte-americano. Os anos 80 são os anos da maquilhagem exagerada e das permanentes capilares. Os anos 80 são os anos das roupas berrantes, quer nos homens quer nas mulheres. Os anos 80 são os anos dos filmes e séries canastrões, com os actores mais canastrões do que uma mistura de Toy com Zezé Camarinha: Lorenzo Lamas. David Hasselhof. E um longo etc. Os anos 80 são, por fim, os anos da música pop mais pirosa e dos videoclips mais ridículos de que nos lembramos mas gostaríamos de esquecer. Vale a pena até ter Alzheimer se a doença apagar esse período que está calcinado na nossa memória.

Vá lá saber-se porquê, para reavivar tão indecorosa época, a gaja resolveu assistir a uma selecção de videoclipes intitulada "O melhor dos anos 80" (e deixem-me que vos diga: se aquilo era o melhor, não quero nem imaginar o que seria uma escolha "O pior dos anos 80". Deveria ser tipo Chernobyl - outra merda que ocorreu nos anos 80 -, mas mais cancerígena!). Durante não sei quanto tempo, porque acabei por perder a noção do tempo e do espaço passados os primeiros 10 segundos, foram desfilando "artistas" da craveira de um Limahl, de uns Modern Talking, de uma Yazz, de uns Foreigner, de uns Europe, de uns Bros, enfim, é melhor ficar-me por aqui, pois creio que desse lado vocês já devem estar à beira de um AVC. E não fazem nada mal.

Nada simboliza tão bem os clipes e a sonoridade "anos 80" como esta merda: o keytar, ou sintetizador-guitarra. Enfim, como uma imagem vale mais do que coiso e tal, fica aqui a tromba de um
Horrendo, não é?! Pior do que a guerra das Malvinas ou o conflito no Afeganistão, que tanto sofrimento provocaram nos anos 80. O keytar só não foi abolido em convenções das Nações Unidas porque os líderes mundiais, como sempre, estão arredados e distantes daquilo que pesa sobre os povos. O gás saryn é mau? Claro que é. O napalm é hediondo? É pois. Mas o keytar podia ser usado na criação de bandas-sonoras para a eternidade passada no Inferno. O keytar supera facilmente as unhas a raspar em superfícies duras, os alarmes de automóveis e o riso da Cristina Ferreira como som mais irritante a que os seres humanos podem ser expostos.

Foi isto que a gaja ontem libertou. Tal como um Kraken saído das profundezas marinhas, o som do keytar saiu dos anos 80 para voltar a atormentar os justos e os dignos. A gaja não pareceu importar-se muito (deviam vê-la a cantar o "You're my heart, you're my soul", dos inenarráveis Modern Talking...), já eu vou precisar de muita psicoterapia e antidepressivos para conseguir lidar com isto um mínimo que seja. Até os meus colegas de trabalho já notaram qualquer coisa de errado. "O que se passa contigo hoje, Peter of Pan?", perguntaram eles. "Duas sílabas: key tar", respondi eu. 
 
E eles perceberam logo tudo.

Malditos anos 80...

segunda-feira, setembro 30, 2013

Curtas secas sobre assuntos vários

Futebol

O Sporting apanhou uma equipa chamada Alba no sorteio da Taça de Portugal. Se for tão apetecível como a Jessica, posso dizer que será um prazer enfiá-las lá para dentro.

Ciclismo

O Rui Costa tornou-se campeão do mundo em ciclismo. Nota-se que o rapaz está a progredir imenso. Agora, para chegar ao topo da carreira, só falta vencer o Tour de France e ser apanhado num controlo antidoping.

Autárquicas

Já não via tanto vermelho associado ao Alentejo desde que a minha colega gorda alentejana do 6º ano apareceu com o período.

Autárquicas 2

Segundo as sondagens, a estreia da Casa dos Segredos foi o programa mais visto do dia de ontem, suplantando a análise e o comentário às eleições. Portanto, concluo que os políticos, para estarem mais próximos dos portugueses, devem ser deixados sozinhos para poderem andar à porrada e f*der-se uns aos outros. Mas a verdade é que isto já está feito. Três letrinhas apenas: PSD!


sexta-feira, setembro 27, 2013

Estratégia infalível para não nos esquecermos do chapéu-de-chuva nos transportes públicos

É esquecermo-nos do chapéu-de-chuva em casa.

Experimentei hoje e funcionou. Portanto, é uma medida com 100% de eficácia.

Experimentem vocês também e verifiquem se assim não é!

Bom fim-de-semana e boas molhas.

segunda-feira, setembro 23, 2013

Romanos e benfiquistas: uma análise comparativa

Lembram-se dos romanos?! Aqueles tipos que queriam dominar todo o mundo conhecido e gostavam muito de combates entre gladiadores? Sim, esses. Para os romanos, tudo o que tivesse pancada e sangue era coisa para valer a pena. Hoje em dia, há um grupo de indivíduos que muita semelhança tem com os antigos romanos: isso, os benfiquistas. E não é só por ambos serem simbolizados por uma águia...

Sigam os acontecimentos. Os benfiquistas passaram as últimas épocas a assobiar o Cardozo. Quando o Cardozo empurrou o Jesus,* o paraguaio passou a ser o jogador mais querido dos adeptos. Já o Jesus recebeu críticas e assobios atrás de críticas e assobios desde, pelo menos, o desgraçado final da época passada da lampionagem, mas bastou andar à batatada com a polícia para renascer aos olhos da mole lampiã.**

Portanto, os benfiquistas são romanos, mas sob uma fatiota vermelha e branca. Eles gramam é porrada. Nem ligam muito ao futebol, querem é ver o circo pegar fogo. Desde que haja tabefe e soco, está tudo bem.

Sabem o que eu tenho a dizer sobre isto, sabem?!?! O mesmo que os gauleses irredutíveis diziam: "estes romanos são loucos".

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* Mais uma "coincidência". Tanto romanos como benfiquistas tiveram de apanhar com um Jesus.

** Ressurreição que só tem paralelo no outro Jesus, aquele que foi crucificado, voltou dos mortos e acabou por conquistar Roma. Acrescente-se - se é que tal era preciso - que tanto o Jesus de Nazaré como o Jesus da Amadora travaram amizade com homens que vieram a ser chamados de Papa.

quinta-feira, setembro 19, 2013

Le sommeil

Tenho tanto, tanto sono...

Tenho tanto sono que, acabado de me cruzar com uma rapariga dotada de notável prateleira, só cerca de meio minuto depois interiorizei o que havia acontecido e consegui pensar, para comigo mesmo, "Fosga-se, mas ca ganda par"*. Se alguém me houvera observado durante aquele intervalo de tempo, certo estou de que atentara em ampulhetas do Windows a pairar, com animadas piruetas, sobre a minha cabeça.

Esta merda está tão mal que a frase imediatamente anterior é assim como que uma mistura de escrita barroca com A Teoria do Big Bang (só um geek se vale de símiles tecnológicos...).

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* Esta merda está tão, mas mesmo tão mal que pensei e escrevi uma cacofonia ("ca ganda"?!?!?!) e nem me dei ao trabalho de alterá-la.

P.S.: Já para não falar da rabetice que é pôr um título de um post em francês. Só pode ser do sono...

terça-feira, setembro 17, 2013

Juízos sintéticos a priori há muitos, seu palerma!

Parece uma notícia típica de silly season, mas é tudo menos silly (e, já agora, também não é nada season): na Rússia, andaram aos tiros por causa do filósofo Immanuel Kant. Pronto, está bem, dito assim, até que é um bocadinho silly.

Não que a História da Filosofia esteja isenta de episódios de violência. Não está. Ficou célebre a quase agressão de Wittgenstein a Karl Popper com um atiçador numa ocasião em que discutiam questões filosóficas. Há um romance qualquer a narrar este episódio, leiam-no e não me chateiem. Mais célebres ainda, embora mais distantes no tempo, ficaram as contendas entre os filósofos medievais a propósito da chamada Querela dos Universais. Essas contendas, que começavam sempre por ser disputas intelectuais, resvalavam não poucas vezes para o confronto físico, o que dá ares de paradoxo quando se sabe que tais filósofos eram frades, monges, enfim, homens de grande devoção cristã. Se por um lado andavam a pregar a castidade e o amor ao próximo, quando o assunto era saber se as propriedades (os tais "Universais") tinham uma existência concreta (assim defendiam os realistas) ou não passavam de meros nomes (posição dos nominalistas), a moralidade cristã ia para o caraças e passava a valer tudo, até atirar Bíblias às cabeças adversários. E esta merda devia aleijar à séria, pois as Bíblias de antanho eram bem mais pesadas do que aquelas comercializadas hoje em dia. Coisa para abrir um buraco maior do que esta lesão do futebolista Wayne Rooney.

Seja como for, andar aos tiros por causa de uma discussão filosófica é algo inaudito. E mais inaudito é todo este caso quando se vê que o causador involuntário foi Kant, o filósofo que defendia não devermos olhar os outros simplesmente como meios para outras coisas, e estou a simplificar. E ainda mais inaudito é saber que a disputa decorreu quando os dois indivíduos intérpretes do kantianismo estavam a tentar comprar cerveja.

Espantadas, as autoridades procuram agora saber qual das formulações filosóficas kantianas levou ao extremar de posições entre os dois russos. Oposição quanto ao significado do imperativo categórico? Ou terá sido a dedução transcendental das categorias? Ou mesmo os juízos sintéticos a priori? Ou o apelo ao Reino dos Fins, de resto, se é permitida a minha opinião, um dos aspectos da filosofia kantiana que dá mais vontade de bater em alguém, a começar pelo próprio Kant?! Enfim, aguarda-se ansiosamente a resposta, e eu só espero que a polícia russa tenha pelo menos um especialista em Filosofia, uma espécie de Horatio Caine com uma pós-graduação (mestrado, no mínimo!) em Idealismo Alemão.

Só mais uma nota: segundo refere a notícia do Sol, "as discussões sobre filosofia são muito comuns na Rússia". Se isto for verdade, não sei o que ando a fazer aqui. Por bem menos, o Depardieu pediu cidadania russa. Ter uma menor carga fiscal é giro, sim, mas estar num país onde se discute filosofia na fila para a mercearia é mais giro ainda. Quer-me parecer que ainda vou ter de descobrir o e-mail do Putin e solicitar-lhe, também eu, a cidadania russa...