terça-feira, março 01, 2011

Expressões que eu adoro: rego do rabo!

"Rego do rabo". "Rego do rabo". "Rego do rabo". Caramba, o quanto esta expressão me fascina. Antes de mais, pela sua musicalidade. Repitam, para vós mesmos, esta expressão. "Rego do rabo". E agora, façam-no sílaba a sílaba: "Re", "go", "do", "ra" e "bo". É de uma sonoridade espantosa, não é?! A expressão dança entre sons baixos e altos, serpenteando pela escala musical como o Messi pelo meio de jogadores adversários. Simplesmente magnífico, e é uma pena que os grandes poetas, afinal os grandes ourives das palavras, nunca tenham utilizado esta expressão nos seus textos. Nem, Dante, nem Petrarca, nem Camões, que tinha obrigatoriamente de fazê-lo no episódio da ilha dos Amores, nem Baudelaire... Nem tu, Manuel João Vieira, nem tu soubeste valer-te deste precioso tesoiro...

Outra característica digna de realce da expressão "rego do rabo" é a sua extravagância em, ao apor-se a qualquer outra expressão ou frase, enriquecer esta última, como se o todo fosse mais do que a soma das partes. Eu sei que esta ideia soa estranha: o normal é colocar-se qualquer coisa no rego do rabo, em lugar de se colocar o "rego do rabo" em qualquer coisa, mas sigam-me, por favor. E lembrem-se de que estou a falar de uma expressão ("rego do rabo") e não da coisa denotada por essa expressão (o rego do rabo). Para mais detalhes, leiam qualquer coisa acerca da distinção entre de dicto e de re. Eu podia explicar-vos, mas agora estou a coçar o escroto.

Mas desvio-me do trilho. O que quero eu dizer quando digo que a expressão "rego do rabo" enriquece qualquer outra? Bom, em vez de andar aqui com circunlóquios, creio que será preferível recorrer a exemplos. Ora então vamos lá.

Peguem no mais famoso trava-línguas da língua portuguesa. Sim, "o rato roeu a rolha do rei da Rússia". Agora, enfiem lá para dentro o "rego do rabo" [atenção à frase que acabei de escrever: é "enfiem lá para dentro o "rego do rabo"" e não "enfiem lá para dentro do rego do rabo". Tenham juízo, pois não estou aqui a fazer qualquer apelo à sodomia. Isso fica para outros posts, se me apetecer].

Se fizeram bem aquilo que vos sugeri, devem ter ficado com uma coisa deste género:

"O rato roeu a rolha no rego do rabo do rei da Rússia".

E caramba, digam lá se o trava-línguas não ficou melhor?!? Em vários aspectos: a frase fica mais longa, logo é melhor para praticar a sonoridade dos rr, fica mais musical (veja-se o que escrevi no início) e fica mais divertida. E, como corolário, responde desde logo à questão que toda a criança educada a dizer "o rato roeu a rolha do rei da Rússia" faz: onde raios estava a rolha do rei da Rússia que o rato roeu? Com este acrescento, a dúvida não não fica a pairar no ar: onde estava a rolha do rei da Rússia que o rato roeu? No rego do rabo, pois então!

É mesmo uma expressão adorável. Espero que tenham ficado a concordar comigo. Se não, então vão apanhar no rego do rabo.

3 comentários:

Pulha Garcia disse...

Científica argumentação, Peter. Discordo apenas que o grande mestre Manuel Vieira não tenha versado sobre tais caminhos. Ocorrem-me desde logo vários temas musicais, daqueles que vais a cantarolar no autocarro sem que te dês conta da atenção dos demais passageiros ...

Peter of Pan disse...

Pulha, também eu sou admirador confesso de toda a carreira do MJV, mas não me recordo de ele alguma vez ter utilizado esta expressão. Usou outras, pois então, e igualmente ricas, deixando orgulhosos todos os falantes do bom português, mas "rego do rabo" escapou-se-lhe.

Manuel disse...

ahahahahahahahahahahahahhahhahahahahahahahahahahahahahahahahahahaahahhahaahahahahahahahaaahahahahah

Das melhores que já li!!!!!