terça-feira, outubro 26, 2010

E se eu tivesse seguido uma carreira musical? - Parte I: Ascensão

Estão a ver aquela teoria do Edward Lorenz, o "efeito borboleta"? Aquela coisa que diz que, se uma borboleta bater as asas na Europa, poderá provocar um terremoto na Indonésia? No fundo, isto significa que algo aparentemente insignificante pode levar a consequências inimagináveis; uma modificaçãozinha de nada no estado de coisas pode muito bem virá-lo de cabeça para baixo.

Na sequência do post de ontem, tinha-vos prometido fazer um exercício de suposição: o que aconteceria se eu me tivesse rendido à minha paixão pela música e decidisse fazer disso vida? Estaria eu aqui? Ou noutro sítio qualquer? Seria a mesma pessoa? Ou outra completamente diferente? E a realidade à minha volta? Manter-se-ia igual? Ou, pelo contrário, também ela se alteraria, e se sim, isso quer dizer que o Sporting se tornaria num clube vencedor?! Por outras palavras, poderia eu ser como a borboleta do Lorenz (sem paneleirices, ok?!?!) e provocar uma completa alteração do mundo?

Bom, duvido que certas coisas mudassem: eu continuaria a gostar de mamas. E de música, claro. Mas parece-me que a minha vida dificilmente seria a mesma... vejamos como.

Aos 13 anos, se em vez de ir para casa ver Os Soldados da Fortuna, tivesse optado por entrar naquela escola de música que abrira há pouco tempo no meu bairro, a minha vida seria dedicada em exclusivo à música. Optaria pela guitarra (what else?!) e a minha dedicação depressa me levaria ao domínio completo do instrumento (what else?!). Com 15 anos, abandonaria a escola (a de música e a outra...), convencido de que nada mais lá poderia aprender.

Passado pouco tempo, espalharia anúncios pela cidade: "Jovem prodígio da guitarra procura vocalista, baixista e baterista para formar banda mesmo muita fixe. Idades entre os 14 e os 17 anos. Dá-se prioridade a quem seja do Sporting. Se forem maricas, não faz mal, desde que não tentem ir-me ao pacote durante os ensaios". Em poucas semanas, a banda estaria composta: eu na guitarra solo, o Miguel (alcunha: Mastruço) na voz e segunda guitarra, o Paulito (alcunha: Cagão) no baixo e o Toni (alcunha: Evereste) na bateria. Depressa surgiriam as primeiras discussões: que nome daríamos à banda? E as composições seriam em inglês ou português?! Após várias horas de altercações, que incluiriam combates físicos, a minha vontade prevaleceria: cantaríamos em Latim e a banda chamar-se-ia Maximus Sumus.

Não demoraria muito até alugarmos uma garagem para os ensaios. A química da banda é perfeita e em poucos meses temos material suficiente para darmos concertos e gravarmos um álbum. Começa a haver algum burburinho sobre nós: somos considerados a grande promessa musical de Santo António dos Cavaleiros, embora residamos em Caneças! Somos convidados para actuar numa escola secundária e finalmente o grande dia do primeiro concerto chega. E o mesmo é um sucesso: as nossas canções e atitude levam o público ao delírio. No fim de um dos meus solos, alguém grita: "Vocês vão ser mais famosos do que o Moisés", o que provoca algum desconforto num judeu, que responde "O Moisés separou as águas do mar Vermelho e tirou o povo israelita do jugo egípcio. Estes tipos nem sabem mijar de pé". Os ânimos exaltam-se e há porrada da grossa, o que só ajuda a melhorar o concerto.

Poucos dias depois, um A&R de uma editora entra em contacto connosco. Pede-nos para entrarmos em estúdio o mais rapidamente possível. Assinamos um contrato, com o próprio sangue, e eu gasto a minha parte toda em álcool, putas e bilhetes para a época do Sporting. Em duas semanas, gravamos aquele que será o nosso primeiro álbum: Fornicare Vos. É feita uma primeira prensagem de 20000 cópias, que vendem como pãezinhos quentes: estamos nos tops, nas capas das revistas, nos artigos dos jornais. Os críticos consideram-nos a grande esperança da música portuguesa cantada em Latim. Gravamos vídeos para três singles: Nix Caeser onanistii est, Phallus meos e Lucernas mortem. Esta última acaba mesmo por ser adoptada como cântico da Juve Leo. Agraciam-nos com 5 discos de platina e, mais importante, o nosso disco é editado internacionalmente. Depois de uma tournée nacional, que teve o seu ponto mais alto num concerto esgotadíssimo no Estádio de Alvalade, embarcamos numa tour europeia. Em cada país, em cada sala de espectáculos, somos recebidos como verdadeiras estrelas. Começamos a habituar-nos à vida de sex, drugs & rock'n'roll.

Aos 17 anos, apanho a minha primeira overdose: após um espectáculo magnífico em Viena, uma empregada de hotel encontra-me todo nu, inconsciente e espumando da boca. Sou levado para o hospital e lá recupero, acabando por ter sexo com duas enfermeiras fãs dos Maximus Sumus. De volta a Portugal, a editora paga-me uma estadia num solar em Ponte de Lima, onde é suposto desintoxicar-me, mas eu aproveito o tempo todo para ter sexo em grupo e experimentar novas drogas. O Mastruço, o Cagão e o Evereste juntam-se a mim e passamos cerca de 10 meses naquilo. Nos intervalos das quecas e do consumo de estupefacientes, aproveitamos para delinear aquele que virá a ser o nosso segundo disco.

O novo material satisfaz-nos e regressamos ao estúdio. Embora surjam conflitos com o produtor, as canções soam bem e em três semanas e meia completamos o novo trabalho: Dolor Penile. O disco é um estrondo, superando largamente as cifras de venda do primeiro álbum. Até os EUA se rendem aos Maximus Sumus. Público e crítica são unânimes nos elogios. Somos capa na Guitar World, na Rolling Stone, no NME e a Time declara-me a pessoa mais importante do mundo de sempre. Depois de uma tournée portuguesa e de outra europeia, ambas muito bem sucedidas, somos convidados para uma tournée nos States, mas eu digo não, por razões de anti-americanismo, o que muito enfurece os meus companheiros de banda e o pessoal da editora. Curiosamente, o público americano passa a adorar-me ainda mais. A Kim Basinger e a Sharon Stone [não se esqueçam que ainda estamos na minha adolescência, e na minha adolescência estas duas senhoras eram os grandes ícones sexuais norte-americanos] prometem ter sexo comigo caso os Maximus Sumus toquem nos EUA, porém eu continuo a fazer finca-pé e enrolo-me com a Samantha Fox durante 15 dias seguidos após um concerto dado em Londres! Também nesta cidade, um braço de uma guitarra que parti num concerto em Bruxelas é vendido num leilão da Christie's pela astronómica quantia de £250.000.000.000.000.000.000, um recorde absoluto! Estou no zénite da minha fama!

Amanhã, se me apetecer, não percam a segunda parte deste épico hipotético.

2 comentários:

Ilda disse...

Andas a escrever muito, pá!! :)

Carlos Garcia disse...

Que texto brilhante!