quarta-feira, maio 27, 2009

Da arte de bem arregaçar as mangas de uma camisa

Não é mentira nenhuma se eu disser que, normalmente, sou um gajo despistado no que toca ao vestuário. Não ligo à moda, nem me interessa saber que peças de roupa ligam umas com as outras e com o meu gracioso, lindo e esbelto corpo. Em suma, visto-me como um autêntico maltrapilho e estou completamente a cagar-me para isso: t-shirts rotas, calças debotadas, ténis rasgados é a combinação mais frequente aqui por estes lados, o que poderia muito bem fazer de mim um fashion guru da malta do Bloco de Esquerda.

Todavia, de quando em vez dá-me para vestir uma camisa. Das bonitas e arranjadinhas, o que me faz parecer um beto da linha de Cascais, não fosse a tatuagem que exibo na testa, onde se pode ler, com delicadeza, "Odeio betos, porra!". Pois bem, hoje foi uma dessas vezes em que saí para a rua de camisa. As minhas vizinhas nem queriam acreditar: "Ah, aquele de camisa é o Peter of Pan?", dizia uma, "Não, não pode ser, ele vai tão composto", dizia outra, "Ah, mas é ele, é ele, olhe para aquele andar desengonçado mas no entanto cheio de estilo, é inconfundível, é o Peter of Pan", dizia novamente a primeira, "Não acredito, ele está na rua de camisa, não posso crer. Ter-se-á metido na droga?!", dizia a segunda, armada em parva.

A questão é que não me limitei a vestir uma camisa, e sim uma camisa de mangas compridas. Isto levou a que, enquanto caminhava a distância que separa a minha casa da estação de comboios, durante a qual fui presenteado com mais uns comentários idiotas por parte de alguns cidadãos do meu bairro ("Aquele ali de camisa não é o Peter of Pan? Ou já bebi tanto às 8 da manhã que ando a ver coisas?!"), e tendo em conta o intenso calor que se fazia sentir, o meu sistema sobreaquecesse. E o que faz um gajo que enverga uma camisa de mangas compridas quando o calor aperta? Exacto: vá de arregaçar as mangas! E foi precisamente o que fiz, e posso garantir que, pese o facto de só em pouquíssimas ocasiões vestir tal peça, a minha técnica de arregaçamento é impecável, irrepreensível, perfeita. O meu talento é tal que as mangas parecem ter sido arregaçadas a régua e esquadro! E se desfaço a coisa, fazendo regressar as mangas ao seu estado original comprido, asseguro que nem uma dobra, nem um amasso se nota! Sou muita bom, pronto, assim uma espécie de José Mourinho das mangas de camisa, mas com menos arrogância e com melhor pronúncia do italiano, che cazzo!

Quando já estava no comboio, alinhavado no meu lugar a ouvir o último petardo dos Napalm Death no meu leitor de mp3, indiferente aos olhares de inveja que me eram dirigidos por outros passageiros do sexo masculino, e que se poderiam traduzir nisto "F*da-se, que mangas impecavelmente arregaçadas tem aquele tipo. Porque é que eu não consigo fazer o mesmo? Porque é que a minha camisa parece um quadro cubista?", sentou-se uma tipa ao meu lado. Que não resistiu a olhar-me de alto a baixo, como aliás fazem todas as tipas que se sentam ao meu lado, à minha frente, por baixo ou até a 3 quarteirões de mim. Eu sei, eu sei, este meu encanto é um problema... E como qualquer outra pessoa naquela carruagem, deparou com as minhas mangas perfeitamente arregaçadas. Soltou um "Oh" de exclamação e de seguida um "Desculpe, pode ajudar-me?", só que eu não ouvi porque estava entretido a escutar o bruta sonzaço de que falei atrás. Mas ela não desisitiu e puxou-me pelo braço, chamando a minha atenção. Tirei calmamente os fones, virei-me de frente para a tipa e preparei-me para lhe dar uma cabeçada bem dada ali bem na cana do nariz, que é o que eu faço quando interrompem as minhas divagações sonoras. Contudo, vendo-a assim, face a face, desisti, pois tratava-se de uma ultra-boazona, vestida com uma deliciosa camisa lilás que deixava antever os deliciosos contornos dos seus deliciosos seios.

Ela sorriu para mim, e repetiu a pergunta feita: "Desculpe, pode ajudar-me?". "Claro", respondi eu, já com o leitor de mp3 desligado e arrumado a um canto, ou seja, perdi-o. "Como é que conseguiu arregaçar tão bem as suas mangas? Eu estou aqui com tanto calor e queria arregaçar as minhas, mas não sei fazê-lo." Altruísta e de boa índole como sou, disponibilizei-me logo: "Deixe estar. Eu ajudo-a. A vantagem das camisas de manga comprida é justamente esta: permite-nos, quando está calor, puxar as mangas para cima e, quando está frio, puxar as mangas para baixo. É como se fosse uma camisa cabriolet", filosofei, ao que respondeu com uns risinhos, não imaginando que me apetecia fazer umas cabriolas com ela... (a gaja, não a camisa, entenda-se).

Ajudei-a, então. Peguei no seu braço esquerdo, e suavemente puxei a manga da sua camisa para cima. De seguida, peguei no seu braço direito, e delicadamente arregacei a manga desse lado, enquanto absorvia a fragrância dos seus cabelos e deitava olhares furtivos ao seu decote. Ao terminar aquela intervenção, senti uma outra coisa a arregaçar-se em mim. Ela reparou, com certeza, porque com um evidente tom de malícia atirou-me "Obrigada. Ficaram perfeitas. Como posso compensá-lo?", sendo que esta última frase foi dita com um sorrisinho malandro e um brilhozinho nos olhos, daqueles brilhozinhos que se têm antes de se preparar uma sacanice.

Ao escutar isto, pus-lhe o meu indicador nos lábios, silenciando-a, e levantámo-nos dos respectivos lugares. Saímos logo na primeira paragem e corremos para uma moita de arbustos que se localizava a uns 150 metros da estação. Lá, deitámo-nos e começámos a fazer o belo do amor, que vou abster-me de descrever, não só porque foi tão bom que fazer uma exposição seria envergonhar aquelas pessoas cujo sexo jamais se aproximará daquilo (ou seja, todas as outras pessoas que não eu e a rapariga da camisa lilás) mas também porque sou um rapaz muito pudico.

Digo apenas que, como resultado desta odisseia toda, lá acabei por ficar com a camisa amarrotada...

11 comentários:

Rita disse...

Esqueceste-te da última parte, "...e depois acordei!"...
Jokas

Alexandra disse...

O mais giro é que tu sabes o que ela perguntou sem teres ouvido a primeira vez,imagino que no sonho estivesses com dupla visão da coisa,uma parte via-te a ti e a gaja,a outra estava em ti e via só o decote ;P

Peter of Pan disse...

@Rita: não foi sonho, foi real, e eu tenho uma camisa amarrotada a prová-lo!

@Alexandra: eu sei o que ela disse da primeira vez porque mo contou enquanto estávamos no meio da moita.

Alexandra disse...

Não te incomoda andarem a falar ao mesmo tempo que têm sexo selv...desculpa,fazem amor?:P

Intruso disse...

grande peta lol

abr

Peter of Pan disse...

@Alexandra: nada, nadinha. Eu gosto da conversa, sempre dá ao acto um cariz intelectual.

@Intruso: olha, outro a pensar que é peta. Se não fosse o facto de a camisa já ter sido lavada e passada a ferro, colocava aqui uma fotografia a comprovar como ela ficou amarrotada às custas das cambalhotas na moita.

Ilda disse...

Venho por este meio, defender o senhor "meu gajo", a camisa amarrotada e por lavar existe, sou eu que a vou lavar (esta é a parte má)... a rapariga da camisa lilás tb existe (este é a parte boa): era eu!!! A parte do sexo selvagem, são promessas (não é, oh Peter of Pan)!!!

Peter of Pan disse...

Olha, até tu não acreditas na narração... :(

Daniel Silva (Lobinho) disse...

lol, está delicioso. felizmente venho numa altura em que a tua mais que tudo ja esclareceu tudo :) Obg Ilda :) Eu ia comentar que nao acreditava muito no final mas que tudo o resto era muito verosimel ;)... e que, ha sempre aqueles posts que acabam por saber melhor do que outros. De facto tens um humor interessantissimo :)

ab

Peter of Pan disse...

@Daniel: toda a narração é verosímil, não percebo a tua desconfiança relativamente à parte final. Que mania!

Daniel Silva (Lobinho) disse...

lol :)

grande abraço, amigão.