quarta-feira, setembro 09, 2009

Das coisas imprevisíveis

Há fenómenos e acontecimentos que, por mais que os tentemos prever, fogem ao nosso controlo e têm a fabulosa capacidade de nos surpreender. Os episódios meteorológicos são um desses casos. Quem andasse ontem pela rua, sem uma única nuvem visível no céu, dificilmente poderia imaginar a poderosa trovoada que caiu esta manhã. O mais provável seria que hoje o tempo estivesse calmo, soalheiro e ameno tal como esteve ontem. E a verdade é que - agora - está, mas no meio do bom tempo de ontem e do bom tempo de agora, encaixou-se um mau tempo de fugir.

É claro que as coisas imprevisíveis não surgem por acaso. O mau tempo de há pouco teve uma causa, da qual foi o efeito. O que sucede é que nós não possuímos os instrumentos conceptuais ou mesmo tecnológicos para captar as subtis mudanças atmosféricas. Escapa-nos o quadro completo, porque só temos acesso a parte da realidade, seja porque os nossos sentidos e as nossas capacidades cognitivas são limitados (um cão consegue cheirar melhor do que nós, embora cheire mal, sobretudo se não tomar banho...), seja porque ainda não desenvolvemos mecanismos suficientemente precisos (sim, temos barómetros, termómetros, altímetros, pichómetros e afins... mas não chega!).

Em suma, nós somos supreendidos com ocorrências que não conseguimos prever porque, quer queiramos quer não, somos uns totós! E porque somos uns totós, aquilo que não sabemos ou conhecemos, inventamos! A tempestade desta manhã não estava no programa? Epá, então como é que apareceu? Hmmm, terá sido por causa do debate entre o Sócrates e o Louçã?! Ou é um presságio do que irá suceder hoje à selecção portuguesa?! Será um sinal dos céus? Ou de extraterrestres? E o que os illuminatti têm a ver com isto? Alguma coisa, certamente. E a Opus Dei também. E, já agora, a Opus Gay. A trovoada, no fundo, foi provocada por uma conspiração, com a Maçonaria e a Máfia napolitana à cabeça. E a Manuela Moura Guedes também está lá metida, tal como o Fidel Castro!!!

Mas se certos fenómenos são imprevisíveis, o que dizer das pessoas?! No que toca ao elemento humano, a nossa ignorância é igual, se não maior. Afinal, que instrumentos temos nós para "medir" as pessoas? É essa ausência que nos leva a não compreender como é que o preto, num momento, é preto, e no momento a seguir já é branco! (atenção, esta merda não é nenhuma boca ao Michael Jackson) As pequenas transições fogem-nos porque somos feitos de tal forma que não as conseguimos captar. Por isso é que não conseguimos compreender quando uma líder partidária acusa o primeiro-ministro português de asfixia democrática devido às suas tentativas de calar um jornal televisivo e logo a seguir a mesma líder partidária elogia um presidente do governo regional quando este é conhecido por tentar calar a comunicação social mais crítica. Uma pessoa normal não consegue atingir estas merdas porque não é capaz de perceber de onde elas vieram. O que faria sentido, racionalmente falado, era que hoje estivesse um tempo impecável como o de ontem, e não que ocorresse uma tempestade tropical; da mesma forma, o que faria sentido era a líder da oposição mandar uma chicotada no Sócrates e mandar uma no Alberto João ou, pelo menos, abster-se de o elogiar do ponto de vista democrático.

Só que as coisas não são como nós esperamos que sejam. As coisas, lá está, são uma caixinha de surpresas, e muitas vezes parecem-nos racionais e ilógicas apenas porque nós somos ignorantes das causas. Porém, essas causas estão lá e não ligam à nossa constitutiva incapacidade ("incapacidade" é um eufemismo. A palavra que aqui deveria estar era "burrice"!). A trovoada aconteceu porque x, y e z se deram. Eu, que não sou meteorologista, aposto que foi uma baixa pressão na estratosfera provocada pelo afluxo do vento norte nas zonas austrais marítimas (vá, admitam ao menos que esta explicação sempre tem mais estilo do que invocar os illuminatti). E as declarações da Manuela Ferreira Leite na Madeira ocorreram não porque alguém a obrigou, não porque ela tenha bebido demais (uma coisa comum naquela ilha, a avaliar pelos comícios do PSD), não porque ela estivesse drogada mas pura e simplesmente porque é estúpida. E se nós não reconhecemos isto, então é porque também nós somos estúpidos!

7 comentários:

Ilda disse...

Cá para mim ela teve foi medinho dele! Mas também quem é que não tem? Assustador, até mesmo para a MFL (ainda que isto seja dificil de entender)!

Daniel C.da Silva disse...

Olá amigo :)

O meu lúcido comentário é este: nao venho aqui hoje em particular, penso ja ter dito algumas vezes que embora provavelmente gostes de receber comentarios como toda a gente eu cuido mais em saborea-los (aos textos) tal como faço no Rafeiro, porque sao estilos que nao me levam muito a escrever, quando muito elogiar, dizer que esta parte esta girissima e acabando invariavelmente a dizer que todos o posts é como sempre bóptimo.

Venho aqui por duas coisas: porque nao sei a que te referes quando falas na Anita Ekberg (sou muito louro, tens de entender as minhas limitações ;) e porque ao ver os teus premios aí ao lado, nao me tenho lembrado de que ainda nao te ofereci o famosíssimo (eh eh) Premio sair das palavras. É que é ja a seguir. Devo ter suposto que ja te o havia oferecido ha muito, ou que simplesmente foi numa altura em que nao ligarias muito a isso, mas aqui fica: vai lá, e entrego-te "pessoalmente" neste comentario o premio que instituí ha uns tempos e que muito bem mereces :9

Grande abraço sem a graça com que escreves mas prontes ;);)

)0( disse...

A explicação para a trovoada de hoje é simples, segundo a minha filha: "as nuvens chocam, fazem um barulho (trovão) e depois ficam assustadas e choram."
Capicce?

:D
Beijos para vocês

Lexy disse...

Dormi a noite inteira ;)

Rafeiro Perfumado disse...

Tanta conversa só para dizeres que choveu, pá... e eu te digo se os cães cheiram mal. Alguns são perfumados e tudo, pá!

Peter of Pan disse...

@Gaja: Mas o Jardim mete medo a alguém?! Nem vestido de guerreiro zulu!!! (pronto, ele de cuecas é assustador, mas é só!)

@Daniel: além de agradecer os teus elogios, já recorrentes, informo que a Anita Ekberg é a diva do filme Roma, realizado pelo grande Fellini, e que possui uma das cenas mais emblemáticas da história do cinema: aquela em que a Anita mergulha na fonte de Trevi. Ah, e agradeço também o prémio, tratarei depois de o colocar aqui na barra do blogue.

@)O(: ora aqui está mais uma explicação obscurantista, desprovida de rigor científico! Elas não choram, mijam-se!

@Alexandra: e se te calasses, hum?!

@Rafa: tira-lhes o perfume e vais ver o cheiro... :)

Unknown disse...

Farto-me de dizer isto: Eu estou seriamente a pensar em enviar o meu cv para o instituto de meteorologia, não vão eles precisar de mais um criativo por lá... ahahahah Eu nem quis acreditar na trovoada nesse dia! O mundo anda louco. :S
Beijinhos.