quinta-feira, março 04, 2010

O meu cabelo


O meu cabelo é algo independente de mim. É uma matéria com vida própria, algo que só faz aquilo que lhe apetece e não o que eu lhe peço. O meu cabelo, no fundo, nem sequer é lá muito meu: convive comigo, mas apenas porque nasceu agarrado à minha cabeça. Quanto ao resto, somos como que duas entidades diferentes, um pouco como dois gémeos siameses condenados a ficar juntos mesmo que um queira ir para a esquerda e o outro para a direita.

O meu cabelo espanta muita gente. Recordo-me de uma vez ter sido interpelado no comboio por um senhor com os seus quarenta anos. Esteve uns 15 minutos a olhar especado para mim e para o meu cabelo e não resistiu a perguntar-me "Desculpe incomodá-lo, mas o senhor sabe que tem um ser alienígena em cima da sua cabeça?". Quando lhe respondi que não, não era uma forma de vida de outro planeta e sim o meu tecido capilar, ele não pareceu ficar lá muito convencido e disse apenas para si, baixinho mas não tanto que eu não pudesse ouvir, algo como "Olha, este já foi dominado... vou é sair daqui, não vá isto pegar-se".

Outra vez, estava no restaurante ocupado com a minha refeição e duas mesas ao lado uma criança fazia birra para não comer a sopa. Lembro-me bem do diálogo entre o petiz e a mãe deste... A mãe disse-lhe "Come a sopa, senão chamo o Papão!" O puto, esperto e com ar de quem já não é levado por tais patranhas, devolveu simplesmente um "Ha! O Papão não existe!" A mãe, porém, mais esperta e decidida a fazer com que o puto comesse a sopa, atirou-lhe com esta: "Ai não existe?! Existe, existe! Olha ali o Papão em cima da cabeça daquele senhor! Se não comeres a sopa toda, vou lá buscá-lo!" A cara que o puto fez enquanto olhava, horrorizado, para o meu cabelo era digna de um filme de Hollywood. Não sei se hoje em dia, passados muitos anos, o puto ainda acredita no Papão. O que eu sei é que, naquele dia, ele lá comeu a sopa toda...

O meu cabelo poderia muito bem figurar na colecção do Museum of Bad Art (sim, este museu, tal como o meu cabelo, existe). Esteticamente falando, o meu cabelo constitui uma mistura de dadaísmo, cubismo, surrealismo, abstraccionismo extremo, op art, pop art, expressionismo, fauvismo e, claro, arte rupestre. Ou não, porque o meu cabelo não gosta de ser categorizado (é muito senhor do seu vaso capilar, ele).

O meu cabelo é assim, desconcertante. Água, champô, pente ou secador não o dominam. Só a majestosa tesoura o consegue aplacar. O único paliativo que eu conheço para o meu cabelo é cortá-lo. E é o que eu vou fazer no próximo fim-de-semana, o que significa que só o vou cortar daqui a um mês. Sim, a frase é estúpida, valha-me Liédson, mas ao contrário do meu cabelo, faz todo o sentido: quando eu digo que vou cortar o cabelo no fim-de-semana e só o corto um mês depois, tal deve-se a ter de preparar psicologicamente o meu cabelo para o que vai acontecer. Se a tesoura o ataca de surpresa, ele reage mal... Quando eu tinha 14 anos, deu-me um vaipe e tomei a decisão de cortar o cabelo na tarde de uma quinta-feira. Fui ao barbeiro, sentei-me e ao primeiro gesto do baetas, o meu cabelo picou-lhe a mão em vários sítios (o pobre homem teve de ir parar ao hospital e nunca mais pôde exercer a profissão). Foi aí que percebi que tinha de ser mais diplomático e sensível. Daí a frase acima.

Aposto que o Tony Carreira não tem destes problemas...

1 comentário:

marta disse...

E nem o José Carlos Pereira, que anda a fazer implantes com o cabelo que lhe vão buscar ao... peito!