segunda-feira, outubro 19, 2009

Lúcidos comentários acerca de Parlez-moi de la pluie


No sábado, aproveitei mais uma oferta cinematográfica da 10ª Festa do Cinema Francês e fui assistir à nova película da grande Agnès Jaoui, realizadora/argumentista/actriz responsável por dois óptimos filmes: O Gosto dos Outros e Olhem Para Mim. Este mantém o toque Jaoui, com a ajuda sempre inestimável do seu companheiro, e também actor e argumentista, Jean-Pierre Bacri. E o "toque Jaoui" é fazer comédias com muita subtileza e um enfoque particular nas relações humanas e seus desenvolvimentos. Quem sai da sala de cinema depois de ver um filme da Jaoui inevitavelmente fá-lo com um sorriso nos lábios, mostrando que o bom cinema não precisa de ser só pachachas rapadas a serem seviciadas por atléticos mastruços.

[Um aparte: viram como se pode fazer boa crítica sem se ser pedante nem chato como os gajos do expresso?! E sem usar clichés como "mise-en-scène" e o camandro?!?!]

Só que a noite esteve longe de ser impecável... Com um filme da qualidade de Parlez-moi de la pluie, seria de esperar que qualquer espectador se sentisse satisfeito por só pagar 2 € pela sessão, certo?

Errado! A minha gaja, que gosta tanto de cinema francês quanto de um AVC, conseguiu surpreender-me! Então não é que, estando eu interessado em ver o filme, e a acompanhar o enredo, a páginas tantas me viro para observar a sua reacção só para constatar que ela está a dormir?!?!? A dormir!!! Isto lá é comportamento que se tenha? Felizmente não ressonou, mas a cabeça à banda e o fiozinho de saliva que escorria pelo canto direito da sua boca não davam claramente bom aspecto. Ainda bem que as salas de cinema costumam estar às escuras...

Mas o desplante não se ficou por aqui. Nãããão... Ela ainda teve a lata de acordar no intervalo, espreguiçar-se, bocejar e olhar para mim com aquela carinha de "o culpado disto és tu", quando tudo o que fiz foi convidá-la para o cinema, pagar-lhe a entrada e esperar que ela curtisse a sessão, nunca que utilizasse as cadeiras da sala para se armar em alentejana e passar pelas brasas.

Quando o filme recomeçou, pensei que a soneca anterior lhe tivesse chegado. De novo, acabei por ser mais enganado do que um defesa central quando apanha o Messi pela frente, e quem diz o Messi diz o Yannick Djaló, por razões diferentes, pois um gajo quando vê o Djaló está à espera que ele tente o passe, a finta, o cruzamento ou o remate, e nunca que tropece na própria bola e a faça ir para fora do relvado. E fui enganado porque, 20 minutos após o reinício do filme, a gaja volta a cair nos braços de Morfeu, e desta feita com um leve mas incomodativo ressonar. A sorte dela foi não estar ninguém nos bancos adjacentes, porque um cinéfilo mais convicto que apanhasse uma pessoa assim ao lado não se coibiria de lhe mandar um chapadão, coisa que até a mim próprio apetecia fazer. Só não procedi assim porque, ao contrário de um qualquer desconhecido, eu conheço a minha gaja, e sei que enfiar-lhe um chapadão, mesmo que por boas razões, levaria ao término da vida de todas as pessoas que se encontravam ali, descansadas, a assistir a um bom filme.

Quando o Parlez-moi de la pluie acabou, veio a cereja no topo do bolo. Então não é que, após ter passado mais de metade do tempo a olhar o filme para dentro, depois de quase me ter feito passar vergonha, de ter desperdiçado os meus dois euritos e de me colocar na cabeça a intenção de nunca mais voltar a trazê-la à rua, ela vira-se para mim para afirmar que o filme foi um lixo?!?!? Acham isto normal!?! Acham?!?!?

Nunca mais volto a assistir filmes franceses com a minha gaja, sacré bleu!

3 comentários:

H.Vogado disse...

Tens de ir às matinés. Aconteceu-me o mesmo quando fui ver "A maldição do escorpião de Jade" do Woody Allen. Ela acordou com as gargalhadas e depois não gostou nada do filme. Para ela foi como o "Branca de neve" do César Monteiro.

Kat disse...

Hihi compreendo a tua gaja.. filmes franceses..hummm..

Ilda disse...

Bom venho aqui só para te dizer que afinal mudei de ideias, o filme até é muito bom, muito bom sonorifero, epá deves comprá-lo qdo sair porque assim acabam-se as insónias (ainda que ocasionais) para mim!