quinta-feira, maio 26, 2011

Memórias da minha quase carreira cinematográfica

Pouca gente sabe disto, até porque estou a inventar este post agora, mas eu quase fui uma estrela de Hollywood. É verdade! A coisa passou-se assim:

Nos princípios dos anos 2000, eu não sabia bem o que queria fazer da vida. As minhas opções, à semelhança das pernas de uma dançarina de strip-tease, mantinham-se em aberto: eu podia ser jogador de futebol, gestor de uma empresa multimilionária, traficante de heroína, ou actor. Escolhi a opção mais difícil e comecei a ir a audições. Depois de ter feio alguns papéis de teatro, recebi uma carta do meu agente a dizer que uma produtora de Hollywood estava interessada em mim para protagonizar uma cobóiada. Parecia-me bem, e comuniquei ao meu agente que solicitasse uma cópia do guião.

A cópia chegou-me poucas semanas depois, ainda sem título, mas com uma frase de efeito a anteceder o texto: "Three young cowboys fight discrimination". Uau, pensei eu, aquilo prometia. Já passavam imagens na minha cabeça: eu e os meus dois amigos cobóis lutávamos contra os índios e mais - tínhamos uma arqui-inimiga que era a discriminação! Já estava mesmo a ver-me na tela, aos tiros, em duelos, montado num cavalo e a dar cabo de tudo. Ia ser mesmo bom!

Comecei a ler o guião. A coisa começava paradinha. Continuei a ler. Nada de índios, nada de tiros. Apenas três cobóis que arranjavam emprego como guardadores de gado. Pensei para mim mesmo: "Ah, se calhar depois os índios roubam o gado aos cobóis e vendem-no à discriminação, e nós depois temos de lutar contra os índios e enfrentar a discriminação para recuperar o gado. Iá, tá um enredo fixe!". Continuei a ler. Os três cobóis amigos vão para as montanhas passear o gado, e chega-se a noite. Eu: "Ah, é agora que chegam os índios, queres ver?". Armam uma tenda, diz o guião. Metem-se dentro da tenda, continua o guião. Eu leio, em suspenso: estou mesmo à espera que venham os índios e roubem o gado, mesmo debaixo do nariz dos três cobóis. Volto a por os olhos nas páginas: os três cobóis estão debaixo da tenda, mas não conseguem dormir. "Ah", imagino eu, "estão preocupados com a segurança do gado. Vai haver molho. Bom, a sorte que eu tenho de terem pensado em mim para este filme". Retorno ao guião. Há uma troca de diálogos entre os três, e nisto vejo que o guião diz que eles se enrolam! "QUÉÉSTAMERDA?!?!?", gritei eu, estupefacto. "Então mas que c@r@lho de cobóiada vem a ser esta?!? Não pode ser, deve ser uma gralha!". Avancei umas páginas e confirma-se: não é gralha nenhuma: eles beijam-se, agarram-se por trás, trocam mimos e carinhos, e nada de tiros, de índios e de discriminação. Decidi telefonar ao meu agente:

Agente: Estou?
Eu: Ouve lá, ó meu palhaço, estás acordado?!
Agente: Agora estou. Que queres, Peter of Pan?
Eu: Ó meu g'anda bandalho, então aquele guião que tu me deste...
Agente: O de cobóis? Esse?!
Eu: Sim! Então não é que...
Agente: Sim?!
Eu: Então não é que aquele guião...
Agente: Desembucha, pá!
Eu: Aquele guião é para um filme...
Agente: Sim?!
Eu: É PARA UM FILME DE COBÓIS MARICAS, PÁ!!!!
Agente: Ai é?!
Eu: É!
Agente: E então?
Eu: E então?!? E então?!? Ouve lá, ó meu arraçado de prepúcio, mas tu achas isto bem? Eu lá aos beijos com outros dois cobóis?!? Eu a ser sodomizado por um deles enquanto sodomizo o outro?!? No meio do gado?!? E nem há índios, e onde é que está a discriminação que era suposto eu combater?! Beijos?! Abraços?! Carinhos?! Entre cobóis?!?!
Agente: Um actor deve sujeitar-se a sacrifícios pela sua arte, Peter!
Eu: O #$&#& é que deve #$#%/$ ao @#&$%/, ó meu #%/$%/$ do $/%&&£€!!!
Agente: Hã?!?
Eu: Tu percebeste! Quero que digas ao estúdio, e àquele produtor, e ao realizador, e toda a gente envolvida que não vou fazer o filme, está bem?!
Agente: Ó Peter, não sejas assim, pensa lá melhor. Estão todos à tua espera e o produtor indicou-te especificamente para aquele papel. O Heath Ledger e o Jake Gyllenhaal já confirmaram as suas presenças e vão contracenar contigo! Olha que este filme pode dar Óscar!!!
Eu: Eu quero é que esses dois se f#&@% e que enfiem os Óscares num sítio que eu cá sei!! Eles que se enrolem os dois! Comigo não contam! Cobóiadas dessas não, pá! Tira-me do filme, já!
Agente: Olha, vou ver o que consigo fazer. Mas ficas já a saber que este pode ser o fim da tua carreira cinematográfica!
Eu: Que se lixe. Arranja-me papéis de jeito.
Agente: ...está bem. Amanhã telefono para os estúdios. Mas eles não vão ficar contentes.
Eu: €£§@£"&#$%!
Agente: Boa noite para ti também.

E foi assim que a minha carreira acabou antes mesmo de começar. O meu agente tinha razão: depois da minha nega, ninguém mais em Hollywood quis saber de mim. Ainda arranjei uns papéis menores no cinema europeu: eu, ou melhor, o meu pénis, foi diversas vezes convidado para fazer de duplo da Torre Eiffel em filmes sobre Paris, mas lá está, isso deve-se menos ao meu talento enquanto actor e mais ao meu talento de ter uma viga entre as pernas, que após poucos minutos de caracterização fica mesmo a parecer-se com a torre dos franciúsus. Enfim, tais trabalhos foram dando para pagar as contas, e sempre foi melhor do que estrelar num filme de cobóis panascas que, aliás, como toda a gente sabe, e como o meu agente previra, foi um sucesso, mesmo tendo sofrido alterações ao guião após a minha nega. Mas cada um toma as suas opções...

Até amanhã.

1 comentário:

Porque um dia me perdi... disse...

LOLOLOLOL...Obrigado pelas gargalhadas matinais...