quarta-feira, novembro 02, 2005

Envergonhado

Os leitores desta "terra do nunca" bloguística que dá pelo nome de Peter of Pan já conhecem certas particularidades que me caracterizam. Duas delas, porém, ultimamente só me têm feito passar vergonhas...
A primeira é ser sportinguista. Quando me perguntam pelo meu clube, e eu respondo "Sporting!", as reacções normalmente são: a) escárnio; b) pena; c) violência; d) todas as anteriores. Ainda na passada semana, enquanto conversava com um trolha ucraniano que ajudara na construção do Freeport de Alcochete, senti isso na pele. O homem vinha de expor a sua original interpretação da angústia kierkeggardiana quando resolveu perguntar: "Por falar em angústia, qual é o teu clube?". Ainda procurei contornar a questão: "Clube? Não tenho. Não sou adepto de organizações sectárias", mas após muita insistência, lá deixei escapar um "Eu... eu... eu sou do Sporting!". A gargalhada soltada pelo meu interlocutor de leste só deve ter paralelo em Bertrand Russell, quando este pegou, pela primeira vez, numa obra de Heidegger. Cinco minutos depois, já com uma facies séria (estou a falar do trolha; o Russell nunca conseguiu tirar aquele sorriso de gozo...), entendeu telefonar a alguns amigos e, de repente, vi-me rodeado de 10 a 15 ucranianos com o triplo da minha largura. Apanhei um tareão que não sei se vos diga se vos conte...
Para evitar este tipo de coisas, extremamente prejudiciais à minha saúde, engendrei um esquema. É este: não sendo capaz de evitar dizer que sou sportinguista, achei por bem acrescentar à frase um pequeno detalhe. Assim, quando surge a pergunta, respondo: "Sou do Sporting... de Braga!". Nem imaginam como este simples acrescento faz toda a diferença! Em vez de gozado ou agredido, sou respeitado e até mesmo reverenciado. Alguns indivíduos chegam ao cúmulo de me dar pequenas pancadinhas no ombro enquanto afirmam que vou ser campeão este ano... Com isto, a minha qualidade de vida tem melhorado substancialmente.
Só não tem melhorado mais ainda devido à segunda das minhas vergonhas, a filosofia. Quando a conversa resvala para a (de)formação académica, nem queiram saber o que acontece! Sou mais ostracizado e maltratado do que um militante do PP numa Festa do Avante. Aliás, a filosofia tem sido a principal responsável pelo meu insucesso nos engates. Sempre que convido uma boazona para jantar, esperando no final do encontro poder desvelar a sua aletheia, acabo por ficar sozinho e ter de pagar a conta. Porquê? Porque as tipas, sem excepção, a dada altura do repasto têm de atirar: "Então o que fazes? Tens algum curso superior? Gostas das minhas unhas?". Como respondo "Nada! Filosofia! Sim, mas espero que não me arranhes as costas logo à noite", elas levantam-se e piram-se. E é quando já têm entreaberta a porta de saída que lançam, desdenhosamente: "Eu não saio com um licenciado em filosofia nem que este se chame Reynaldo Giannechini!" Por via disto, não tenho sexo desde que acabei a licenciatura - e já lá vai algum tempo.
Desconfio que as chavalas agem assim porque há diversos preconceitos contra a filosofia, a saber: a) os filósofos ou são maricas, ou assexuados, ou impotentes; b) a filosofia é estéril e pateta; c) a filosofia portuguesa é muito estéril e muito pateta; d) os filósofos portugueses ou são muito maricas, ou muito assexuados, ou muito impotentes. Malditos preconceitos, é o que vos digo. Ainda por cima, são todos verdadeiros...
Mas também para esta situação já arranjei um esquemazinho. Passa por dizer que, em lugar de licenciado em filosofia, sou "analfabeto". Ainda não pude comprovar o sucesso da resposta - é dizer, ainda não tive sexo!... - mas creio que ainda hoje cuidarei disso. É que tenho uma janta marcada em casa de uma "tia" do Estoril, e vocês sabem tão bem quanto eu como as "tias" adoram homens desempregados e analfabetos. Sei lá, devem ficar iludidas com a possibilidade de sexo primitivo, duro e bruto!...

Porque vos relatei isto tudo? Ora, porque a minha costela altruísta me mandou! Eu sei que, algures no mundo, deve haver uma ou até mesmo duas pessoas como eu, ou seja, sportinguistas e licenciados em filosofia. É a esses que me dirijo, pois sei bem quanto sofrem. A minha história é, pois, uma mensagem de esperança: se eu consigo ultrapassar essas dificuldades, outros também serão capazes! É só deitar os olhos ao meu exemplo. E tenho dito!

Eterno Entorno

7 comentários:

david disse...

Compreendo o sofrimento. Sou do Sporting, também. E não estudo Filosofia, estudo Comunicação Social, mais concretamente, Jornalismo. Com isto acho que também já disse tudo.
[choro]

Tozé disse...

Eterno Entorno ajuda-me!
Sou licenciado em filosofia e a minha namorada quer-me apresentar aos pais. Obviamente que não lhe revelei qual a licenciatura que tirei! Habitualmente quando a conversa surge, finjo um ataque cardíaco e constumo livrar-me mais ou menos bem tendo contudo apanhado já uns choques electricos graças à resposta rápida do INEM...enfim regressando ao assunto; a última vez que tive a sorte de estar a engatar com sucesso, a menina resolveu apresentar-me aos papás e apanhei a pior tareia da minha vida assim que revelei que secretamente estava a tirara o curso de filosofia. Não quero mais! Ainda tentei resolver a situação dizendo que à noite trabalhava na morgue e que aos fins de semana ia comer tremoços ao bar do Quim mas nada os demoveu de me quererem mutilar!
Que faço? Eterno Entorno you're my only hope!

radioapilhas disse...

Solução para todos os estudantes/licenciados/mestrados/doutorandos e afins em filosofia. A cumprir à risca! Em primeiro lugar, a filosofia é o melhor recurso técnico de engate conhecido. Activa a curiosidade natural feminina, desperta os neurónios adormecidos de certas fêmeas e confere ao macho um ar exótico de autoridade, subtilmente vaporizado de mistério. É tiro e queda, chapa cinco, trigo limpo farinha amparo, como quiserem. É só falar do problema do amor-próprio na orgânica geral do amor (para o tipo de gaja que espera ser derretida como vela em dia de aniversário) ou da estruturalização marxista no séc. xx e consequente declínio (para a pseudo-comunca com ares de refractária social). Há paleio para todos os gostos. Atrevo-me a dizer que com um curso de filosofia não há desculpa para engate falhado.
Solução para comprometimento mais sério (apresentação aos pais, etc.): não mentir! Tirei filosofia, coiso e tal, tudo bem, mas vou tomar conta do negócio da família (inventar um) e sinto-me em condições porque a filosofia proporcionou-me uma abertura abrangente da visão do mundo e das pessoas. Xeque-mate. Conquista familiar geral, o preferido da futura sogra, o genro esperto e trabalhador. Palavras para quê?

radioapilhas disse...

Quanto a ser sportinguista...
HHAHAHAHAHAHAAHAHHAHAHAAHAAH...
perdoem-me...

sem emprego e com a licenciatura em filosofia disse...

...deve ser por isso que a Sociedade/Associação Portuguesa de Filosofia tem tão poucos adeptos....assim nunca chegarão a clube!

Eterno Entorno disse...

Ou muito me engano ou temos de aprender umas coisitas com o nosso amigo radioapilhas...

spiegelman disse...

O Erro é dizer "sou licenciado em filosofia". Ponto... A gaja fica de pé atrás... "ès um inútil...", Mas se a seguir disser: Sou licenciado enm Filosofia, mas tenho uma representação numa companhia de seguros" Está safo..." Significa, "Este tipo é cheio da pasta e ainda o posso exibir às minhas amigas empregadas de escritório leitoras da CARAS, para as humilhar intelectualmente com balelas incompreensíveis." è que um tipo cheio da pasta com um alicenciatura em engenharia não passa de um assentador de tijolos com um canudo. Se à pasta se puder arranjar uma verborreia intelectual acerca do senbtido da vida... Posso dizer que nos tempo áureos o "Ah, és de Filosofia?" chegou a ultrapassar o "Ah, tens uma banda?", que ainda assim permanece eficaz... Uma gaja ainda prefere ir ver-te a tocar ao vivo do que ir ver-te a ler Kant... A licenciatura em Filosofia é uma arma extremamente eficaz no que concerne às mulheres, se usada com sabeforia... Com honestidade é que não...