sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Hoje é dia de... Carmina Burana

Daqui a umas seis horas, mais coisa menos coisa, vou assistir, ali na Aula Magna, à Carmina Burana do Carl Orff, numa interpretação da Nova Orquestra Sinfónica de Lisboa. Ou seja, vou armar-me em burguês ou aristocrata, aparecer num concerto de música clássica/erudita e fingir que sou um tipo com quilos de classe e categoria. Bem diferente, portanto, de ir ver prestações manhosas dadas por bandas black metal do Azerbeijão, creio eu, embora não necessariamente melhor. Bandas black metal azeris fazem um sonzaço do caraças!
Mas a verdade é que aprecio genuinamente a Carmina Burana, obra que origina em mim um turbilhão de emoções, algumas delas conflituantes (fónix, pareço o Rui Vieira Nery a falar… isto está bonito, está!). Sobretudo, não consigo evitar sentir, sempre que a escuto (e de certeza que em concerto tudo isto que vou relatar se intensificará mais), uma enorme euforia, provocada principalmente pela majestosa abertura O Fortuna, célebre por aparecer, aqui há uns anos atrás, nos anúncios da Old Spice, mas também um incrível terror e igual tristeza quando chega a peça Veris Leta Facies. Está bem, admito que esta última declaração soa um bocado abichanada, afinal um homem como deve ser não sente tristeza quando escuta música, e muito menos medo. E eu sou um homem como deve ser, não duvidem! Acabei até de cuspir para o chão e coçar os tomates para prová-lo. Então, o que se passa? Por que fico tão mariquinhas ao ouvir a Veris Leta Facies?
Bom, alguma vez viram o fantástico Saló, do Pier Paolo Pasolini, filme inspirado no livro, também ele excepcional, Saló ou os 120 Dias de Sodoma, do Marquês de Sade? Em primeiro lugar, se ainda não viram nem leram, um aviso: é preciso ter estômago, não se trata de algo fácil. Eu próprio, que me orgulho de ser bastante fleumático no que toca a descrições depravadas e terríficas, fiquei um poucochinho afectado (mas atenção: não “afectado” no sentido gay e sim “afectado” no sentido de “abalado”. Vamos lá com calma, certo?). Em segundo lugar, se viram o Saló do Pasolini, e aguentaram até ao fim, sabem que o filme termina da pior/melhor maneira (depende das perspectivas, claro): os jovens prisioneiros do palácio são incessantemente seviciados e torturados até à morte, para gáudio dos aristocratas que para ali os levaram. E se prestaram atenção, deram por conta da música que se faz ouvir nesse momento. Exacto, nada mais nada menos que a Veris Leta Facies. É daqui que provém a minha reacção de tristeza e horror; estas propriedades até já estão presentes na própria música, mas são enormemente potenciadas graças à minha associação ao filme do Pasolini, e sendo assim, PAF, estou tramado.
Por isso, já sabem: se amanhã, ao lerem as notícias, vos aparecer algo como “(…) blábláblá, tal e coisa e o caraças, e durante a interpretação da Carmina Burana ontem na Aula Magna, um jovem abanou incessantemente a cabeça ao som de O Fortuna enquanto proferia vários “Yeah!” e depois, durante a execução da Veris Leta Facies, a mesma personagem pôs-se a chorar copiosamente e a gritar sem parar, até que foi retirado pelos seguranças da sala, que lhe administraram choques eléctricos (…)”… bem… fui eu!



Tanis

3 comentários:

)0( disse...

Bom, fico a aguardar pelo relato das emoções pós-concerto :)
Diverte-te!

Peter of Pan disse...

Obrigado. Eu precisava era de um conserto, não de um concerto, mas que se lixe...

Ilda disse...

Hoje tardiamente (porque no fim do mês, não há paz pelas bandas onde trabalho) venho deixar o meu comentário.
1. A "verdade verdadeira" é que tb gosto muito de Carmina Burana, transmite-me sensações/emoções que nem consigo descrever...
2.Eu tb concordo com aquela parte do conserto!!!
3.Sou mais uma a aguardar o relato das emoçoes pós-concerto que deve estar a contecer agora enqto comento!!! Espero que te divirtas!