quarta-feira, janeiro 27, 2010

Apontamentos sobre lençóis térmicos e gajas

A mais recente aquisição lá para casa tratou-se de um conjunto de lençóis térmicos. A princípio, não percebi qual a utilidade daquilo nem o que os distinguia dos lençóis normais; a primeira vez que os experimentei não notei qualquer diferença, e já pensava em dizer à gaja que ela tinha sido aldrabada na compra. Felizmente, neste tipo de coisas as gajas são incomparavelmente mais inteligentes e práticas que os gajos: se nós pirilaus somos muito bons a comprar coisas como cds, jogos, dvds e afins, no que toca às coisas verdadeiramente úteis, a brigada do grelo leva-nos clara vantagem. Porque bastou fazer mais um bocadinho de frio para eu ficar a entender o motivo de ela ter comprado o tal conjunto de lençóis térmicos... ui, que quentinhos!!!

Portanto, isto foi o caso clássico de desdenhar primeiro para aderir depois. Se eu torci inicialmente o nariz aos lençóis térmicos, agora já sou adepto ferrenho. Tudo graças à gaja.

Ora, este episódio fez-me pensar. E quando eu penso, os leitores desde blogue estão fodidos bem arranjados, porque é para aqui que eu venho espalhar os meus pensamentos. E aquilo em que eu pensei foi: que mais coisas, durante a minha vida, eu caí na argola do primeiro estranha-se, depois entranha-se?! Não foram os lençóis térmicos os primeiros, decerto. Pensei, pensei, pensei, e cheguei à conclusão que o caso mais exemplar disto - e creio que não estou sozinho neste ponto - foram mesmo as gajas. Os gajos que estão do outro lado de certeza que me compreendem.

Passo a explicar: nós pirilaus, quando somos mais pequeninos e temos os pirilaus também mais pequeninos, não queremos saber das miúdas para nada. Aliás, nós definimo-nos por contraposição a elas. Que rapaz, durante os seus, vá lá, 6-12 anos, brincava com raparigas? O mais provável era formar grupos de rapazes, grupos esses em que, como se costumava dizer "menina não entra". As nossas diversões eram brincar à porrada, aos soldadinhos, subir às árvores, andar à porrada, jogar à bola, rachar cabeças aos putos de outros bairros, descer aos rios à procura de sapos, envolver-se em tareias e todas essas actividades que enrijecem o corpo e a alma. Quem, nesta fase, quer saber de gajedo?! Nós preferimos andar no meio da lama do que falar com a Gudelónia, achamos muito mais interessante caçar moscas do que olhar para o aspecto da Suculina, a não ser que ela tenha uma verruga no meio da testa, circunstância em que não só olhamos, como a azucrinamos terrivelmente.

Contudo, há uma dada altura em que tudo muda. Há um momento em que a nossa aversão pelo sexo feminino se transforma, inexplicavelmente, em incontrolável atracção. Não se percebe muito bem como, mas um belo dia estamos nós a socar, qual Sá Pinto, a tromba do Paulito e, ao vermos passar a Brufénia, não conseguimos mais desviar o olhar. Depois, claro, o cabrão do Paulito aproveita essa distracção e espeta-nos um pontapé nos tomates...

As coisas passam a ser diferentes para nós, pirilaus. Deixa de nos apetecer ir fazer desenhos na lama - só queremos olhar para as pernas da Irujulinda. Não queremos mais caminhar quilómetros para nos digladiarmos com os palhaços da aldeia vizinha - não quando podemos estar a olhar para as mamocas da mãe da Catuzinda enquanto ela estende a roupa no varal da marquise. E nem queremos já ficar meio dia a jogar à bola - o que desejamos é levantar a saia da Miquifilita e puxar o soutien da Patruriana. A isto, nós pirilaus chamamos "crescer", o que aliás desde logo se verifica pelo próprio crescimento dos nossos pirilaus: aquelas coisinhas que só serviam para fazer concursos de "vamos ver quem consegue mijar até mais longe", agora têm o aspecto de altivas espadas, e começamos a pensar o tipo de destruição que estas armas cortantes podem fazer dentro das cuecas da Estrofuriália.

A partir desta fase, nós só pensamos em gajas. E futebol, claro. Mas mais gajas. Deixamos de poder viver sem pensar nelas. E em futebol, é preciso relembrar. Mas mais nelas. E ironicamente, os poucos putos que andavam com raparigas enquanto nós pertencíamos a grupos de pirilaus e andávamos à porrada com outros grupos de pirilaus, serão no futuro aqueles que, em lugar de andarem atrás dos grelinhos, só desejam é... andar à porrada com pirilaus, daqueles grossos, e enfiá-los no cagueiro; bem enfim, isso agora não interessa. A inversão dos comportamentos pode ser algo bastante estranho...

Em resumo, há coisas cujo valor e importância não conseguimos perceber à primeira. É preciso algum tempo, algum marinar, para que possamos ver as coisas com outros olhos. Comigo, isto passou-se com os recém-adquiridos lençóis térmicos, e passou-se com grande parte dos pirilaus em relação ao gajedo. A vida, por vezes, é assim.

E agora desculpem lá, mas vou ali enrolar-me mais a gaja nos lençóis térmicos!!!! Adieu!

3 comentários:

Ilda disse...

Que raio de nomes foste tu arranjar para gajas!!!

Alexandra disse...

Ao menos nós tiramos as medidas logo desde pequenas.

subtilezas disse...

eu também fiquei fã dos térmicos. com estes invernos assim frios é uma delícia.