sexta-feira, janeiro 15, 2010

A verdadeira tragédia


Ao observar-se as imagens de devastação provocadas pelo recente sismo no Haiti, nenhum português, ou mais precisamente lisboeta, resiste a invocar o grande terramoto de 1755. Não é que algum português se lembre ou tenha estado lá, excepto talvez o Manoel de Oliveira, que já era nascido na altura e, ao saber das terríveis consequências do sismo, deve ter pensado, lá na sua casita no Porto "Eh lá, carago, i se ieu fizeisse uma uobra cinematougráfica, carago, que probocasse mais destruiçom que o seismo que caiue em ceima dous mouros, fuodasse?!?!". E cumpriu isto, o bandalho...

Mas voltando atrás, o que acontece é que o terramoto foi tão intenso e tão marcante que, passados mais de 250 anos, ainda persiste como um dos maiores desastres que atingiu Portugal, juntamente com o Pedro Santana Lopes. E com a prestação da selecção portuguesa no Mundial Coreia do Sul-Japão de 2002. E com as canções do Roberto Leal. E os comentários do Luís Delgado... enfim, temos tido a nossa continha de desastres, ah pois temos... Enfim, o que importa é que o terramoto de Lisboa se encontra na lista.

Daí serem inevitáveis as comparações: o Haiti está a passar pelo seu terramoto de 1755. E isto, minha gente, é que é a verdadeira tragédia: há, neste planeta, um país cujo nível de desenvolvimento é semelhante ao de Portugal em meados do século XVIII! Ou seja, e vejam lá se compreendem a profundidade do argumento: Portugal no século XXI é um país atrasado, mas no século XVIII era ainda mais atrasado, e há no século XXI um país que está tão atrasado que parece Portugal no século XVIII. Mais do que os milhares de mortos, os prédios despedaçados, as estradas rasgadas, é isso que verdadeiramente assusta e nos toca. Pobres haitianos...

1 comentário:

Trinca Espinhas disse...

E o pior é que tens razão.