domingo, outubro 30, 2005

Filosofia e laranjas

Ocorreu-me no outro dia que a filosofia é como as laranjas . Quanto maiores e mais lustrosas menos conteúdo relevante têm . Bem espremidas dão muito pouco para o que aparentam. Mas a pequeninas, aparentemente com menos lustro são geralmente as que têm mais sumo e que sabem melhor. Assim temos vários casos de filosofia continental vistosa e cheia de adjectivos, e outras ideias bem mais concisas que geralmente são de resto as que vão fazendo alguma diferença . Acho que os franceses e os alemães, em geral, não percebem nada de laranjas .



E pronto . Achei importante dizer isto.


Aristoxena

14 comentários:

Carapaus com Chantilly disse...

Pedro Margalho esse sim um agricultor a sério não é? :P

Tiago Mendes disse...

E mais: as de casca grossa normalmente são menos sumarentas! Só se protegem com hermetismos os que de conteúdo têm pouco... o que não é raro ver em Portugal. [Claro que a «Crítica da Razão Pura» é excepção à regra] ;)

Ginja disse...

Claro !!!

radioapilhas disse...

Eu acho sinceramente que quem se dedica às "analitiquices" está tão bem aí como na fruticultura. Ou em outra coisa qualquer, tirando a filosofia.

Aristoxena disse...

Eu não estava a fazer o elogio da filosofia analítica, mas acho precisamente o contrário . Para mim o lugar dos adjectivos é a literatura . Navalha de Ockham: tudo quanto está a mais, corta-se. Tanto faz que seja numa corrente mais tradicionalista como noutra dita mais analítica. Por outro lado, as "analitiquices", como tu dizes, incluem a maior parte do pensamento lógico-filosófico. Se achas que podes dispensar a lógica na filosofia ... Enfim, são opiniões:)

radioapilhas disse...

Se os analíticos fossem como que os sapadores da lógica ou uma espécie de guardiões do templo da Grande Dijunção Exclusiva, nunca poria em causa a sua competência ou honestidade. Parece-me porém que extrapolam largamente os seus domínios e competências. A lógica é uma ferramenta serve unicamente na relação que pode manter com as restantes. É como tentar contruir uma casa só com um martelo.
Mas isso nem é o que me chateia. Porque a ignorância não é moralmente condenável. O que chateia são as manobras de bastidores na "Academia" em que se denota claramente a pretensão, ainda que hipocritamente velada, de acabar com tudo o que não seja "daquele clube".

radioapilhas disse...

Quanto à navalha de Ockham, um bonito título para um péssimo instrumento-

Aristoxena disse...

Ok, ok, já vi que apanhaste algum professor que não te deu a nota desejada ... Agora a sério, acho que o fenómeno da filosofia dita analítica, pertence a uma época e terá a sua importância num determinado contexto. Não é absoluta, mas também ... nenhuma corrente filosófica o é. Digo-te desde já que não concordo com atitudes se soberba filosófica, e esta não existe apenas dos analíticos para os outros, existe também no sentido inverso. Se estou a falar com alguém que percebe de filosofia, tens de admitir que isto é verdade. Acho louvável que se defenda aquilo que perdurou durante séculos como sendo estrutural no edifício (sim, li o teu post) filosófico, na certeza porém de que cabe às gerações seguintes avaliar o melhor e o pior do que ficou para trás, e não se pode fugir ao sentido prático e despojado do pensamento analítico, ainda que se prefira outro estilo. A verdade é que neste momento não temos a distância suficiente para ver com toda a clareza o que de melhor traz a filosofia analítica . Mas também não a temos para avaliar os estragos, SE É QUE OS HÁ. Depois, rótulos são fáceis : o que é isso de se ser "analítico" ? Eu tenho para mim que Aristóteles foi um dos mais fantásticos analíticos de todo o sempre . Por isso é preciso ter muito cuidado com a tomada de partidos, porque nem sempre estamos a falar exactamente dentro do mesmo domínio, nem com os mesmos propósitos ;)

radioapilhas disse...

Cara Aristoxena, depois de ter ouvido um rapazola que tem um site no burgo tuga dizer que Peter Singer é o Sócrates do Séc XXI, não me admira que se possam rolular Aristóteles, Aquino, o coelho da Alice ou Alexandre o Grande de analíticos. Afinal, Platão era neo-kantiano, Sócrates era um epicurista transviado e serodio e Nietzsche tem, a espaços e no que concerne o projecto de reconstrução metafísica, uma orientação heideggeriana.
Não achas injusto a catalogação retroactiva? Poderia dizer, de igual modo, que Aristóteles, principalmente nos 4 primeiros livros, dá provas de ser um excelente fenomenólogo. Mas estaria a ser justo para com a fenomenologia e para com Aristóteles? Acho que não.

radioapilhas disse...

Os primeiro 4 livros da Metafísica (adenda e corrigenda ao post anterior)

Aristoxena disse...

A comparação Peter Singer/Sócrates é simplesmente absurda. Quanto a Platão, seria quando muito arqui-kantiano, não "neo"... Mas atenção: não "cataloguei" Aristóteles nesses termos, nem sequer o comparei a nome nenhum ! É precisamente por ter muitas reservas em relação a rótulos (relê o comentário anterior...) que faço essa comparação . Porque não admitir que Aristóteles foi também, no fundo, um fenomenólogo ? Não o desvaloriza em nada. O radical do termo vem do grego, era um conceito que já existia, apenas não se desenvolveu a temática de uma maneira tão específica senão muitos séculos mais tarde. Insistir na separação radical das águas é fechar os olhos à filiação e continuidade permanentes da filosofia . Isso sim, é ceder aos rótulos, torná-los restritivos e deixar-se limitar por eles. Não acho injusta a tua comparação. Também será injusto dizer que foi astrónomo, matemático, biólogo, músico ?Ninguém sai lesado, desde que se entenda que a fenomenologia tem mais do que pensou Aristóteles, e que Aristóteles tem mais do que fenomenologia : intersectam-se, talvez, mas nenhum contém o outro .

radioapilhas disse...

Cara aristoxena, seria uma boa conversa para ter numa esplanada. Mas mesmo sem esplanda valeu a pena. Obrigado.
Ps.

radioapilhas disse...

eu ia dizer qq coisa mas varreu-se...

Aristoxena disse...

Ok:) Passa pelo blog amigo www.aforismos-e-afins.blogspot.com e dá uma vista de olhos nos temas. Acho que vais gostar e que serás benvindo. Por aqui somos de vez em quando convidados a participar .